segunda-feira, 30 de março de 2009

Hiperactividade Infantil: sintomas ou patologia?

Hoje em dia é muito frequente ouvir-se dizer que uma criança é hiperactiva nos mais variados contextos, escolar, familiar e social. Pois bem, importa saber o que é a hiperactividade e que sintomas apresenta.
A hiperactividade é caracterizada por uma instabilidade constante em que a criança não consegue estar quieta, mostra-se desastrada, levanta-se na aula, fala sem parar, interrompe, não se consegue concentrar e manter a atenção, não consegue estar muito tempo a ver um vídeo ou a fazer tarefas escolares, não espera pela sua vez, tem dificuldade em controlar as emoções, enfurece-se com facilidade.
As causas para este distúrbio são várias, indo desde a hipótese genética e neurofisiologica até as teorias que encontram explicação nas vivências da criança desde o seu nascimento, nomeadamente na relação com os pais, ou substitutos.
Para a primeira e segunda hipótese, os estudos não são conclusivos, sugerem uma explicação mas não a demonstram. Na hipótese neurofisiologica os estudos sugerem uma disfunção cerebral derivada de lesão no sistema nervoso central. A eficácia do metilfenidato vulgo “Ritalina”, em alguns casos, é motivo para não se por de parte esta hipótese. É possível que a origem da hiperactividade seja multifactorial, ou seja, genética, neurofisiologica e psíquica, no entanto o que a prática clínica demonstra é uma realidade bem diferente na maioria dos casos.
Maurice Berger, Pedopsiquiatra e Psicanalista francês que acompanhou 60 crianças e respectivas famílias durante longo tempo, desde 1978 até aos dias de hoje num estudo longitudinal conclui que, sem excluir eventuais factores neurofisiológicos, este trabalho permitiu descriminar vários subgrupos de crianças instáveis ou com hiperactividade, em função da sua história familiar e relacional precoce o que possibilitou encontrar uma verdadeira patologia do movimento.
Assim, foi encontrado nas histórias de vida destas crianças, relações muito prejudicadas ou insuficientes com a mãe, pais imprevisíveis nas suas interacções com a criança, pais com um grau de exigência muito grande em relação à criança, pais que impõem a sua vontade à criança de uma forma incondicional, mães deprimidas numa fase precoce aquando do nascimento da criança, mães instáveis e nervosas, crianças sem limites educacionais a quem os pais deixam fazer tudo. De salientar no estudo que as crianças sem lesão neurofisiologica não apresentavam melhoras quando lhes era administrado o medicamento. Este estudo refere ainda que a percentagem de crianças com hiperactividade resultante de lesão no sistema nervoso central é de apenas 5%, nos casos observados. Assim grande percentagem desta afecção é de origem emocional e referente ao ambiente relacional em que a criança cresceu como refere Imidio Salgueiro, psicanalista português, na sua tese de doutoramento em 2002.
O facto das crianças nada poderem dizer acerca da sua instabilidade, leva a que se levantem inúmeras hipóteses que não as favorecem, conduzindo, muitas vezes, a diagnósticos demasiado óbvios, pois tudo parece encaixar nos sintomas. O que não encaixa, é que a história pessoal de cada um é diferente, logo, as causas são diferentes e os sintomas por certo também. Assim podia-se evitar medicar as crianças, pois nem todas beneficiam dos efeitos da terapêutica, sendo de investir em psicoterapia para a criança e apoio psicopedagógico para a família, e colmatar de algum modo as falhas que ficaram por preencher ao nível do seu psiquismo, e das suas emoções frágeis e instáveis.
Um alerta para pais e técnicos. A hiperactividade numa criança, nem sempre é óbvia, ou seja por traz da instabilidade poderão estar outros problemas. Embora seja mais fácil, perceber e aceitar um diagnóstico de hiperactividade, do que outro, baseado nas relações e interacções do meio relacional da criança, que coloca em causa o papel da família nomeadamente dos pais, será conveniente pensar antes de deixar medicar e rotular uma criança. Culpabilizar os pais também não serve de nada. Apenas gera mais instabilidade. Cabe aos psicólogos, enquanto profissionais da saúde mental, o papel de ajudar pais, técnicos e crianças a ultrapassar as angústias dessas falhas, para que se diluam no tempo a bem da saúde mental das crianças desta geração e das que se seguem.

domingo, 29 de março de 2009

Enurese nocturna: o terror dos pais e das crianças.

O fazer chichi na cama tem um nome técnico: enurese nocturna. O termo deriva da palavra grega “ fazer água”. As crianças mais novas levam algum tempo até conseguirem controlar os esfíncteres de dia e cerca de um ano depois desse controlo diurno conseguem também faze-lo de noite. Esse controle ocorre aos dois/ três anos de idade mas se for até aos cinco anos não é considerado problemático porque as crianças não se desenvolvem todas ao mesmo tempo, há diferenças entre elas. É normal que as crianças molhem a cama de vez em quando, especialmente quando são mais novas. Fazer chichi na cama uma vez ou outra não é considerado um problema. A enurese só é vista como uma dificuldade a ser tratada quando a criança tem mais de cinco anos, faz chichi na cama duas ou mais vezes por semana durante pelo menos três meses de noite ou de dia.
Para além de um constrangimento para os pais, esta disfunção limita as actividades sociais da criança, em vários aspectos, podendo levar a criança a isolar-se.A enurese é a emissão repetida de urina, durante o dia ou durante a noite, na cama ou nas roupas, em crianças com 5 anos de idade. Na maioria dos casos é involuntária, mas por vezes poderá ser intencional.
A enurese não pode ser causada por uma doença orgânica como espinha bífida, diabetes ou bexiga neurogênica: nesses casos, as perdas de chichi são classificadas como incontinência urinária. As causas da enurese nem sempre são fisiológicas mas sim psicológicas ao contrário daquilo que é incutido aos pais.
O risco de uma criança poder vir a apresentar enurese aumenta se o seu pai ou a sua mãe também passaram pela mesma situação em criança, se faleceu um familiar muito próximo, se os pais se estão a divorciar, ou ainda, se nasceu um irmão. Esta “incontinência” poderá ter diversas causas, que são diferentes de caso para caso, que podem ser hereditárias e emocionais uma vez que os aspectos emocionais se transmitem pela relação entre pais e filhos.
Factores como a ansiedade e o stress estão na origem da enurese nocturna, mas quase sempre tem causas relacionais: uma mãe deprimida e pouco disponível, mães ansiosas e angustiadas, pais demasiado autoritários entre outros aspectos relacionais. A incapacidade da criança conter a angustia faz com que não controle os esfíncteres deixando fluir de uma forma simbólica aquilo que não consegue conter. Mães e pais ansiosos contribuem para a ansiedade dos filhos que pode levar á enurese mais tarde. Muitas vezes também funciona como chamada de atenção para uma mãe pouco atenta, ou de retaliação para pais autoritários.
É importante que os pais se dirijam, numa primeira consulta, ao pediatra da criança para excluir a hipótese de ser alguma malformação e a psicoterapeuta de seguida, com o objectivo de ajudar os filhos a superarem a enurese. É importante que a criança se sinta motivada para melhorar, podendo os pais em casa também ajudarem, como por exemplo, lembrarem a criança de ir à casa de banho antes de dormir, não falar sobre o assunto a outras pessoas quando a criança está presente, não envergonhar nem castigar a criança, dar-lhe banho antes de ir para a escola de maneira a que odor não seja alvo de gozo por parte dos colegas e evitar o uso de fraldas, o que provocaria um retrocesso na criança.
Grande parte dos problemas de enurese resolvem-se com algum tempo de psicoterapia da criança e apoio aos pais em simultâneo (feito pelo mesmo psicólogo que faz a psicoterapia) levando ao bem-estar da criança e da família.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Luto: a dor da perda.

A dificuldade em encarar o fim da vida, como parte da existência é o que faz do luto uma experiência tão assustadora. Desde a infância, o ser humano é treinado para não perder e, ao invés de se trabalharem também as perdas, porque fazem parte da vida (continuamente perdemos e ganhamos), incentivamos as crianças a ganhar e acumular ganhos. Os pais protegem os filhos de frustrações e, perder é essencial para entender que nada na vida é permanente. Na infância perdemos jogos, objectos e até pessoas (normalmente os avós). Assim, a preparação para encarar a morte de forma menos traumática é possível e começa na infância. As crianças podem ir aos funerais e devemos dar respostas honestas (sempre adequadas à idade), acerca da morte, em vez de respostas fantasiosas, como a de que a pessoa foi para o céu, viajou ou tornou-se estrela. No dia a dia é preciso falar das perdas como parte da vida. Ensinar as crianças sobre a finitude ajuda a objectivar a existência, reduzindo a angústia existencial.
Os sintomas do luto são divididos em fases: choque, negação, raiva, depressão e aceitação. Nesse processo, a pessoa experimenta desinteresse pela vida, culpa, angustia e revolta. A duração e a intensidade desses sentimentos, vão depender do histórico de perdas da pessoa, e também do grau de relação com quem morreu (a perda mais dura é a de um filho, pois quebra um ciclo ilusoriamente lógico) e ainda do tipo de morte. Nas mortes traumáticas, acidente, suicídio, assassinato, pode haver uma fase de negação mais prolongada e a culpa e a revolta podem aparecer com mais intensidade.
Para superar o luto é importante não sublimar a dor, ou seja canalizar a energia para algo que distraia da dor. A pessoa tem que mergulhar na dor, chorar e manifestar o seu sofrimento. Faz bem à família reunir-se e falar sobre a perda, ver fotografias, recordar situações. Os rituais também ajudam, porque a recuperação é centrada na aceitação da perda.
O velar o corpo e o funeral são um ritual que permite elaborar a perda, despedir-se da pessoa. Quando não existe corpo para fazer o funeral a perda é muito mais difícil de elaborar, conduzindo a sofrimentos muito prolongados que exigem a intervenção de profissionais. O período de luto corresponde à fase em que a falta da pessoa é sentida em casa dura algum tempo. A pessoa não aparece e a dor piora. É vista e sentida em lugares que era hábito estarem. Há hora que chegava e, metia a chave na porta, continua a existir a sensação que uma chave entrou na fechadura. Essas sensações vão desaparecendo à medida que a pessoa vai aceitando a perda. É nesta fase que pode existir uma tentativa de resgatar a vida anterior à perda. Mantém-se a roupa no armário, guardam-se todos os objectos da pessoa e em certas famílias impõe-se o tabu. Outros desfazem-se de todos os pertences do falecido, na tentativa de se livrarem da dor com mais rapidez. Para alguns, passa a ser proibido tocar no assunto. Muita gente muda de casa, de profissão e adopta causas viradas para a relação de ajuda como forma de sublimar a dor.
O facto de a pessoa mudar de casa ou de profissão não faz com que a perda e o sofrimento desapareçam. Estas atitudes, funcionam como curas geográficas, mudam de sítio e o sofrimento é recalcado, impedindo a pessoa de reviver/recordar, processo fundamental à elaboração da perda e aceitação da morte.
De uma forma geral leva-se um a dois anos a “elaborar a perda”, depende da capacidade de resiliência da pessoa, ou seja a forma como cada um lida com os problemas e o sofrimento. Durante esse período, vão acontecer as datas importantes (natal, aniversários, etc). Se os sintomas de luto persistem passado algum tempo para alem do razoável (cinco, seis e mais anos), é provável que a pessoa não esteja vivendo as etapas do luto necessárias para ultrapassar a perda. O processo considerado “anormal” tem duas reacções opostas: ou a pessoa não sai do luto (a mãe que arruma o quarto do filho, põe a mesa para ele,) continuando a preservar o morto, numa atitude de mumificação, e negação como é óbvio, não saindo daquela fase inicial. Ou então a pessoa nem sequer entra no luto (fica indiferente, não chora, age como se nada tivesse acontecido). Nesse luto adiado, a dor fica guardada em algum lugar e um dia vem à superfície emergindo sob outra forma, normalmente de depressão. Quando se avalia a história de vida da pessoa (pode até ter passado dez, vinte ou mais anos) encontra-se um luto por elaborar, confundido com a depressão muitas das vezes e, com uma vida cheia de antidepressivos que apenas servem de rolha (impedem o sofrimento de fluir) nestes casos. É aqui, que a ajuda de um psicólogo é fundamental, para ajudar a pessoa a elaborar a perda.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Depressão: uma doença dos afectos.


A depressão é uma doença que compromete o físico, o humor e, em consequência o pensamento. Altera a maneira como a pessoa vê o mundo e sente a realidade, entende as coisas, manifesta emoções, sente a disposição e o prazer com a vida. É, portanto um problema da esfera afectiva e do humor. Não é sinal de fraqueza por falta de pensamentos positivos ou uma condição que possa ser superada apenas pelo esforço ou força de vontade.
A depressão é uma doença dos afectos. O que são os afectos? São uma parte do nosso psiquismo, responsável pela maneira de sentir e perceber a realidade. A afectividade é, então a parte psíquica que tem a ser cargo a descodificação dos significados dos nossos sentimentos. Se aquilo que estamos a viver é prazeroso ou pelo contrário desagradável, sofrível, angustiante, causa pânico ou medo. Os afectos podem ser comparados a lentes com as quais vemos o mundo. Depois, cada pessoa faz uma leitura diferente dos acontecimentos de vida e obviamente, organiza-se face a eles de forma diferente. Assim, uns vêem as coisas mais coloridas, sempre optimistas, outros sempre pessimistas, outros integram as duas coisas em doses equilibradas, entre outras formas de perceber a realidade. A sensibilidade percebida por esses afectos é sempre uma construção pessoal, dai que seja diferente em todos os indivíduos.
Existem diversas opiniões sobre a depressão. Uns autores defendem que se trata apenas de transtornos químicos no cérebro, por isso, curáveis apenas com medicamentos, outros que são resultado das vivências de cada um, outros que são distorções cognitivas da realidade. A prática clínica na psicologia mostra-nos que a depressão não se cura apenas com medicamentos, ou com força de vontade. E que as cognições estão boas, mas as emoções não, porque a pessoa deprimida tem noção do seu estado, mas não o consegue alterar. Acontece com muita frequência as pessoas tomarem medicamentos durante anos, e lutarem por terem pensamentos positivos, e nunca melhorarem. Em casos muito graves de depressão, poderão ser necessários medicamentos, porque, sabemos hoje graças ao avanço das neurociências, que as emoções afectam o funcionamento do organismo, logo, alteram a parte química, mas, senão existir a parte afectiva e relacional encontrada numa psicoterapia, raramente se curam. Outros casos curam-se apenas com psicoterapia sem necessidade de medicamentos. O que eu defendo é que a psicoterapia é essencial para a cura da depressão pois é com base na relação que os afectos são normalizados.
Como se manifesta a depressão? O quadro da depressão é o mais variado possível, de acordo com a estrutura de personalidade de cada um, no entanto existem dois sintomas que são os marcadores dessa doença: a culpa, e a baixa auto-estima.
A pessoa deprimida sente-se sempre culpada de tudo o que lhe acontece a si e à sua volta, tal como pensa sempre que não tem valor e, que ninguém gosta dela. Dai que afirmemos que se trata de uma doença dos afectos. A depressão surge das mais variadas formas, nas crianças podem surgir problemas na escola, baixo rendimento escolar, ficarem muito caladas, ou pelo contrário muito irrequietas, rebeldes, sem mostrarem qualquer tipo de tristeza. Nos adultos, podem surgir sentimentos de tristeza, choro, apatia, falta de apetite, dificuldades em dormir, irritabilidade, sintomas de pânico, fobias, isolamento, ou uma sensação de esgotamento. Esse esgotamento não é mais que outra forma de depressão. Sentir-se esgotado é sentir-se sem disposição para a vida, para enfrentar os problemas, a monotonia, a constância da vida, para continuar a fazer as mesmas coisas, para suportar as mesmas pessoas, para se defender. Esgota-se a energia e a capacidade de adaptação aos problemas do dia a dia. O que constatamos na clínica é que não existe um estado de esgotamento sem um estado afectivo diminuído, logo, com fundo depressivo.
Nas crianças a depressão tem manifestações diferentes dos adultos. Nas crianças, um dos transtornos muito associados à depressão é a Hiperactividade. Esses sintomas hiperactivos não são mais que a incapacidade da criança em pensar sobre aquilo que a atormenta, normalmente a falta de afecto. É pela falta de afecto que a pessoa deprime. A depressão pode surgir nas mudanças do ciclo de vida da pessoa, em que se operam mudanças significativas (casamento, nascimento de um filho, entrada para a escola, morte de alguém, divórcio) ou a pessoa manter-se num estado de depressão latente, sem se deprimir de facto durante anos.
A depressão pode manifestar-se ainda sob formas de ansiedade, tais como ter medo de viajar sozinho, sentir-se preso num elevador, estar em locais cheio de gente, cisma com doenças, sentir-se avaliado pelos outros, ter medo de falar em publico, entre outros. Ou sob a forma de somatizações, com a queixas físicas. Esses sintomas, apesar de causarem incomodo à pessoa não são visíveis nos exames médicos, levando por vezes ao arrastamento da situação nas consultas médicas de clínica geral, quando a pessoa apenas manifesta esses sintomas. Podem apresentar-se queixas como falta de ar, dores nos membros, estômago, palpitações, tonturas, formigueiros. A depressão pode agravar situações como a diabetes, hipertensão, asma, alergias, síndrome vertiginoso, etc., e ai falamos em doenças psicossomáticas.
A depressão é uma doença muito grave e que compromete toda a vida da pessoa e de quem lhe está próximo. A incapacidade para lidar com as exigências e o humor duma pessoa deprimida conduz a situações sociais graves numa família, tornando-se urgente consultar um especialista da saúde mental (psicoterapeuta e psiquiatra em alguns casos), para que a pessoa seja ajudada o mais rápido possível. Em situações limite a depressão conduz ao suicídio.