sábado, 9 de maio de 2009

Homossexualidade e lesbianismo: quando procurar ajuda psicológica.


A homossexualidade ou lesbianismo é uma atracção sexual e preferência para indivíduos do mesmo sexo. De forma geral fala-se de lésbicas quando nos referimos a mulheres e homossexuais para homens. No século VII A.C, a homossexualidade era conhecida através de Sapho (Primeira poetisa) habitante da ilha Lesbos na Grécia antiga. Foi a partir dos poemas dedicados às jovens raparigas com quem ela vivia e iniciava na arte de cantar, escrever poemas e dançar que os poetas aos poucos foram tornando credíveis lendas de amores homossexuais. A palavra “ lésbica “ provém da ilha Lesbos. Da Grécia antiga permaneceram muitas provas do amor entre pessoas do mesmo sexo, aliás o amor enaltecido na altura não era o amor entre homem e mulher mas sim entre pessoas do mesmo sexo. As numerosas pinturas de vasos, que representavam crianças e efebos praticando ginástica, possuem inscrições do tipo de "calos" que são outras tantas dedicatórias a "formosos rapazes". A cidade Grega, mesmo evoluída, como a Atenas do século de Péricles, continua a ser um "clube de homens", "um meio masculino fechado" interdito ao outro sexo, no qual a dedicação apaixonada de um homem e de um adolescente de doze a dezoito anos pode ser fomentadora de nobres sentimentos de honra e coragem.O famoso "Batalhão Sagrado" de Tebas, no século IV, é um exemplo típico de bravura colectiva sustentada e cimentada por "amizades especiais". Admitamos que o amor de Sócrates por Alcibíades se tenha mantido puro, aliás com grande despeito do jovem, mas como dirá Plutarco, " Se o amor dos rapazes renega a voluptuosidade, é porque tem vergonha e teme o castigo; como necessita de um pretexto honesto para se aproximar dos rapazes belos, começa por pôr em evidência a amizade e a virtude.Cobre-se de poeira no ginásio, toma banhos frios, ergue as sobrancelhas; cá fora, dá-se ares de filósofo e de sábio, por causa da lei; depois, à noite, quando tudo repousa, doce é a colheita na ausência do guarda".Os séculos passaram e a homossexualidade passou a ser considerada como uma doença devido à ignorância e ao preconceito. No século XX alguns países da Europa tais como a Inglaterra a França e a Alemanha legalizaram as relações homossexuais entre adultos. A Associação Psiquiátrica Americana devido a pressões e a evidências científicas deixaram de a incluir no DSM como doença. No entanto ser homossexual ainda traz problemas a quem se assume com essa identidade: perca de emprego, rejeição social, descriminações de vária ordem, ou até prisão como em alguns estados dos Estados Unidos.
A nossa cultura sempre perseguiu os homossexuais, criando tabus e tratando o desejo homossexual como doença, trazendo ao sujeito enormes preconceitos e conflitos internos pela pressão social exagerada. Aceitar a homossexualidade de alguém numa família é sempre um momento de grande tensão e por vezes de rejeição. Não raras vezes a pessoa é tolerada no seio da família mas para a sociedade continua a ser negada essa identidade. Os companheiros/parceiros aparecem como amigos de faculdade, partilha de casa, colegas de emprego, mas nunca são apresentados como parceiros de vida. mas, felizmente nem todas as famílias reagem assim, aceitando essa escolha tal como aceitariam outra de natureza heterossexual.
Apesar das investigações indicarem a formação da identidade de género como algo que se forma na relação com as figuras significativas da vida da pessoa, temos que entender duma vez por todas é que o homossexual não é doente e não existe tratamento para esse tipo de desejos. O que sucede muitas vezes é que a pessoa pensa que se aceita como homossexual mas quando testado em situações práticas reage de forma contrária, porque a sua identidade sexual não está definida. Ter práticas homossexuais não quer dizer que a pessoa tenha essa identidade definida. Quando essa definição não está concretizada e isso causa sofrimento à pessoa então estamos a falar de doença. Mas estamos a falar de doença a um nível da emoção, do sentimento que tem a ver com indefinições e não com o acto em si. São estes casos que procuram ajuda psicológica, os que não vivem bem com a sua escolha, ou não sabem o que são.
Se um psicólogo que atender um caso de homossexualidade no seu consultório disser que tem tratamento para a homossexualidade está a induzir em erro o paciente. Não são raras as situações em que os pais de jovens confrontados com essas escolhas os obrigam a ir a consultas afim de “ tratar” esse problema.
A homossexualidade não é doença e não existe tratamento. Não conseguir viver com esses desejos, reprimi-los, esconde-los, ou negá-los para si próprio e para os outros é que já é considerado problema. Aí, talvez o melhor seja mesmo procurar ajuda de um psicoterapeuta para o ajudar a perceber-se melhor e a lidar com esses sentimentos. Uma sexualidade reprimida poderá levar a estados depressivos graves.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Alcoolismo: preencher a falha afectiva.

A origem do termo deve-se ao médico sueco Magnus Huss, que o propôs em 1848. O conceito de alcoolismo, foi o primeiro passo que permitiu o início das investigações sobre o mesmo, a seguir á Segunda Guerra Mundial. Em 1960 foi introduzido pela primeira vez o conceito de doença associada ao consumo de álcool privilegiando a repercussão negativa, a nível pessoal e social, sendo definida como uma doença progressiva, com um curso fixo e previsível uma vez atingida a dependência, sublinhando a perda de controlo sobre a quantidade de álcool ingerida, um dado indicador para o diagnóstico desta doença.
O alcoolismo não pode ser entendido apenas por causas genéticas ou físicas. O alcoolismo deve ser visto como um sintoma de algo mais profundo ao nível psicológico, encerrando sempre sofrimento psíquico enorme. O abandono social e pessoal é a primeira causa de degradação da vida da pessoa consumidora. A família quase nunca suporta conviver com o alcoólico, quando este passa para a fase em que consome diariamente grandes quantidades para conseguir um estado de bem-estar psicológico, efémero, pois desaparece rapidamente e que conduz a mais consumo. Existe muito alcoolismo escondido sob um beber social e cultural aceite socialmente. O admitir que existem hábitos excessivos de consumo é sempre um passo para a procura de ajuda. A incapacidade para reconhecer isso leva a uma degradação continua, que provoca a morte e arrasta famílias num sofrimento atroz.
O alcoolismo é um sintoma de um desenvolvimento traumático na relação afectiva, desenvolvida com as figuras presentes na vida do sujeito. É esta a chave do diagnóstico, a explicação do nó que ata a vida da pessoa ao consumo de álcool, de forma compulsiva, passando este a preencher o lugar das relações com outros e dos afectos, sempre ausentes da vida pessoal do consumidor compulsivo. O álcool preenche então a falha afectiva que se gerou algures numa fase da vida do sujeito, quase sempre na infância mais precoce.
A pessoa consome álcool para se sentir bem e desinibido, tem medo da intimidade relacional e uma auto-estima muito débil ou inexistente que se alimenta e cresce na medida da ingestão do líquido. A bebida alcoólica é investida como se fosse uma pessoa e passa a funcionar na vida do sujeito alcoólico como se de facto de tratasse de uma presença. O significado do álcool é então a partir de certo momento em que as relações falharam, amor, amigo e companheiro, constituindo-se como valor relacional, ou seja substituindo o lugar do outro, na relação afectiva.
O néctar dos deuses como lhe chamaram os gregos, não é um mal social, pois o problema não reside nele, mas sim em quem o bebe em excesso, passando o seu consumo por uma cultura em que se aprende a apreciar e beber de forma adequada como refere Coimbra de Matos, psicanalista e apreciador do referido néctar.
É possível tratar esta doença. Numa fase inicial passa pela abstinência e desintoxicação com terapia medicamentosa e acompanhamento médico. Depois, assim que estiverem reunidas essas condições, ou em simultâneo, segue-se um tratamento psicoterapêutico, esse sim, transformador da relação que a pessoa tem com o álcool, substituindo-se aos poucos em verdadeiras relações, humanas e afectivas.

sábado, 18 de abril de 2009

Psicoterapias: termináveis ou intermináveis?

Fazendo uma pesquisa em sites que falam de psicoterapia fui lendo vários depoimentos de pessoas leigas na matéria e que podem induzir em erro quem esteja interessado em fazer uma psicoterapia por necessitar e, assim fique a pensar que se a iniciar nunca mais vai sair dali. Essa atitude baseada em crenças deste tipo pode fazer a diferença entre a cura e o perpetuar a doença. É comum ouvir-se dizer na comunidade científica que as análises e as psicoterapias são intermináveis. Isto é verdade mas apenas pelo facto de quando a terminamos com o nosso analista ou psicoterapeuta a continuamos pela vida fora, sozinhos, uma vez que já adquirimos a função analisante, ou seja a função de pensar sozinhos como se estivéssemos a pensar com o nosso analista. Falo na primeira pessoa porque todos os analistas e psicoterapeutas de orientação analítica têm que efectuar uma análise ou psicoterapia com fins didácticos.
Outro aspecto que muitas vezes os clientes referem no início da psicoterapia é o terem medo de ficar dependentes do psicoterapeuta. Isso só acontece se a psicoterapia estiver a ser mal conduzida, porque um dos seus objectivos é tornar a pessoa autónoma. Claro que ao fim de algum tempo esse receio desaparece e, a qualidade que a pessoa começa a ter na sua vida fá-la continuar até atingir um estado pleno de bem-estar.

Em quanto tempo é que esse estado de bem-estar é alcançado? Meses? Anos?

Depende sempre da gravidade do problema e dos objectivos da pessoa. Se a situação for simples (situações de depressibilidade que provocam mal estar a vida inteira e que por vezes se resolvem com alguns meses de psicoterapia) e a pessoa pretenda apenas a remoção dos sintomas, por vezes é rápido de resolver, se a pessoa pretende ir mais fundo no seu modo de funcionamento (alteração da estrutura de personalidade), então será sempre mais de um ano.
Tudo depende da gravidade do problema, se os sintomas são mais neuróticos (fobias, obsessão, histeria), depressivos então tudo se resolve com mais rapidez, se o caso for mais do âmbito da psicose (mais desorganizado), então ai requer uma intervenção conjugada (psicoterapeuta, psiquiatra, serviços sociais e família) e prolongada no tempo pois o objectivo é a qualidade de vida da pessoa com psicose.
Convêm que o leitor fique ciente que não psicoterapias intermináveis, a relação com o psicoterapeuta ou analista não causa dependência (é uma dependência boa), e as vantagens de passar por um processo desses podem fazer a diferença entre viver com saúde ou doente o resto da vida. de considerar que uma pessoa com doença psíquica na família altera todo o ambiente familiar. Se o problema se resolver então a dinâmica familiar irá alterar-se. Todos beneficiam.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Depressão infantil

Muitas das crianças que surgem em consulta psicológica apresentam como pano de fundo depois de alguma investigação por parte do psicólogo ou psicoterapeuta, uma depressão, mascarada quase sempre por outros sinais que confundem a família. Existem diferentes causas para que esse problema apareça e alguns deles nem são importantes, pois podem ser apenas reacções momentâneas a perdas exteriores próprias do desenvolvimento normativo e que desaparecem em pouco tempo. Outras, na sua maioria são acontecimentos de vida traumáticos ou falhas narcísicas (falta de auto-estima) que permanecem desde tenras idades. Muitas destas crianças tem um sentimento de rejeição interiorizado (“ nasci por um descuido dos meus pais”), ou (“ ninguém gosta de mim”) e sentem sempre que não prestam e que são pessoas ruins. Estes acontecimentos de vida sentidos como traumáticos, quase sempre lidos dessa forma pela criança, como tal, foram vividos e interiorizados assim e, nem sempre percebidos pelos pais que quase sempre ficam surpresos e culpabilizados pelos factos que colocaram os filhos com problemas emocionais.A expressão dos afectos depressivos manifesta-se de várias formas: alterações alimentares e de sono, sobretudo perda de apetite e insónia, perturbações do controle dos esfíncteres (chichi de noite e cocó de dia nas cuecas), dores de cabeça e abdominais sem causas físicas, dificuldades de aprendizagem escolar, estas ultimas muito frequentes e confundidas com défices cognitivos, alterações de comportamento, sobretudo instabilidade, hiperactividade e agressividade, furtos e mentiras repetidas.Existe uma forte ligação entre a depressão e a capacidade de uma criança reter conhecimentos na escola e sobretudo na capacidade de pensar. A agressividade tem a ver sobretudo com a incapacidade de mentalizar o sofrimento. A depressão infantil tal como nos adultos não passa por si e com ingestão de medicamentos. É necessária uma intervenção psicoterapêutica, pois, caso não seja tratada traz sérios prejuízos na saúde mental da criança e consequências na vida adulta.