domingo, 10 de janeiro de 2010

Antidepressivos: Curam ou não?


O consumo de antidepressivos em Portugal teve um aumento de 110%, nos últimos dez anos, segundo relatório do INFARMED. Actualmente é a forma preponderante no tratamento da depressão muito por desconhecimento dos seus efeitos e de alternativas a este tratamento, sendo que a maioria dos diagnósticos são feitos por médicos que não tem formação ao nível da psicologia e da psiquiatria e defendem que apenas os medicamentos tratam a depressão. Existem vários tipos de antidepressivos sendo os mais receitados os (ISRS) Inibidores Selectivos de Recaptação da Serotonina, onde se inclui o famoso Prozac, o Paxetil, o Zoloft e o Cipralex. A sua designação de “antidepressivos” é enganadora uma vez que não curam a depressão. São estimulantes da familia das anfetaminas cuja função é acelerar o organismo através da acção das neurohormonas, neuropeptideos e neurotransmissores como a noropinefrina e serotonina. O estimulo que o antidepressivo provoca no organismo faz com que a pessoa se sinta melhor, no entanto a sua acção é muito mais vasta, provocando importantes alterações psíquicas e físicas, com uma importância enorme para a saúde. Alguns autores defendem que os antidepressivos não “existem”, uma vez que, se o fossem na realidade, tratariam com eficácia a depressão o que não acontece, uma vez que em alguns estudos feitos recentemente o placebo tem o mesmo efeito que a medicamante, logo a sua eficácia é muito duvidosa senão mentirosa mesmo.
O PROZAC é utilizado em curas de emagrecimento milagrosas, com compostos feitos nas farmácias e que ninguém sabe a sua composição. Grande parte desses compostos, receitados pelos médicos que trabalham na área, têm por base a Fluoxetina, genérico do Prozac, mas, quem faz essas ditas curas desconhece o que está a tomar. Se pensarmos que grande parte das pessoas que tomam antidepressivos por um período de tempo razoável (mais de dois anos) começam a perder funções cognitivas com alguma rapidez, então imagine-se o que fazem a quem os toma muitos anos, no caso de pessoas gravemente deprimidas e que não vão além das consultas de psiquiatria. É raros os psiquiatras recomendarem às pessoas com depressão que façam psicoterapia, a não ser, que sejam psicoterapeutas ou psicanalistas. Existem estudos que comprovam que a eficácia da psicoterapia é superior ao medicamento e, como os efeitos da psicoterapia nomeadamente da psicanalítica são duradoiros, ou seja, o que foi adquirido em termos de auto-estima e autonomia permanece.
Por ultimo os efeitos prolongados dos antidepressivos são: retenção urinária, cáries dentarias, convulsões, distúrbios sexuais, alterações hematológicas e hepáticas, musculares, ósseas, neurológicas ( as primeiras a aparecerem), gastrointestinais, estados confusos, psicose, entre muitos outros. Assim, e perante estes factos, a toma de antidepressivo, deveria ser a ultima solução depois de procurar uma psicoterapia que se adeqúe à pessoa. Se a psicoterapia não funcionar ao fim de um par de meses, então sim dever-se-ia tentar um tratamento combinado, psicoterapia e psiquiatria com a finalidade de ajudar no processo da psicoterapia. Muitos das pessoas que tomam antidepressivos durante anos sem resultados, se fossem encaminhadas para uma psicoterapia, evitariam muitos problemas no círculo em que se movimentam, tais como, família e emprego, uma vez que o desgaste de quem está à volta de pessoas com depressão é muito intenso. No entanto quero aqui deixar expresso que existem outras situações em que a ajuda dos antidepressivos é necessária, nomeadamente na Esclerose Multipla, Fibromialgia e demências tipo Alzheimer, entre outras que não estão aqui mencionadas, por isso, é muito importante fazer um diagnóstico correcto. Se é depressão por falta de auto-estima, afecto, ou perda significativa, ou se é uma doença com sintomas de depressão, porque no primeiro caso, não é necessário usar antidepressivos.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Estados Depressivos



E.Munch "Melancolia"

Os quadros clínicos depressivos, nas suas múltiplas formas e graus, são o maior motivo de procura de psicoterapia, assumindo uma predominância na motivação para a busca de tratamento. Os estados depressivos estão entre as primeiras causas incapacitantes para a vida activa, sendo que cinco dessas causas são psiquiátricas, a Depressão é a primeira delas. Em geral os médicos que não são psiquiatras, não diagnosticam correctamente a depressão, e os que o fazem adoptam um tratamento desadequado com benzodiazepinas, ou mais acertado com antidepressivos, mas em dosagens desadequadas. Os diversos estados depressivos estão aumentando, mas felizmente as pessoas cada vez procuram mais a ajuda psicoterapêutica e por vezes combinada (psiquiatria e psicoterapia), embora quando a primeira escolha é a psiquiatria, demore tempo a chegar à psicoterapia (a não ser que o psiquiatra seja também psicoterapeuta) pelo facto da maioria dos médicos dessa especialidade não valorizarem a psicoterapia, uma atitude errada, uma vez que induzem o consumo excessivo de medicamentos que só por si não resolvem a depressão, podendo criar verdadeiras dependências nas pessoas.
O aumento tão significativo do número de pessoas deprimidas, que procuram a psicoterapia e a psicanálise deve-se às mudanças sociais e à constante busca de um lugar ao sol, o que aumenta a sensação de fracasso pessoal, o que afecta bastante a auto-estima pessoal favorecendo a eclosão de quadros depressivos.
O número de “depressões subclinicas”, estados depressivos que não se manifestam de forma evidente, mas, sim, por meio de traços mais inaparentes, como por exemplo um estado de continuada apatia, hipocondria, transtornos alimentares, adicções várias, alcoolismo etc., são em número muito elevado, não chegando a maioria delas a qualquer tipo de tratamento por diagnósticos mal feitos e casos que não são encaminhados para despiste noutras especialidades de saúde mental.
Os tipos de depressões são vários bem como as causas que as desencadeiam. As causas podem ser psíquicas, ambientais, biológicas (demências e tumores cerebrais) e sobretudo relacionais tendo a sua génese na infância (depressão analítica ou de vazio, identificativas ao objecto, por perdas prematuras e traumáticas, por culpa, por ruptura com os papeis designados pelos pais, fracasso narcísico, pseudodepressões, por reactividade a acontecimentos de vida, por lutos patogénicos, por deficiente reconhecimento e sobretudo por falta de amor) e os sintomas são quase sempre idênticos em todos os tipos sendo que a culpa internalizada e a baixa auto-estima são o que distingue a depressão normal da depressão borderline ( sem culpa e sem baixa auto-estima) e de outros estados, tais como a tristeza normal que acompanha o ser humano em perdas significativas, tais como o luto normal em que a pessoa está triste mas não está deprimida. Qualquer das situações aqui mencionadas é passível de procura de ajuda psicoterapêutica sendo por vezes necessário fazer um tratamento combinado de psicoterapia e psiquiatria, dependendo da gravidade da depressão.

Fonte (Zimerman, D. 2004)

domingo, 22 de novembro de 2009

Fobias e ansiedade

"O grito" Van Gogh

A palavra fobia deriva de Phobos, deusa grega do medo. Uma fobia é um medo persistente e irracional que resulta no evitamento de forma consciente de objectos, actividades, situações ou animais que são temidos. A fobia consiste num aumento da ansiedade, até limites que impedem a pessoa de funcionar normalmente e que causa um mal-estar enorme. Existem diversos tipos de fobia: medo dos espaços fechados e abertos, medo de aranhas, cobras, cães, alturas, sangue, medo de morrer, medo da vida social, entre outras. No entanto as fobias são medos deslocados sobre algo que existe ao nível inconsciente, logo são deslocados sobre um objecto do consciente, mais suportável e que permite à pessoa ir funcionando, ou seja, são conflitos psicológicos internos relacionados com angustias de desamparo, que aparecem sobre a forma de ansiedade face a algo ( objecto fobigeno)e, que se traduzem em medo e evitamento. Pode existir ainda uma atitude contrafóbica, a pessoa em vez de evitar o medo, enfrenta-o. São exemplos disso, os desportos perigosos, em que a pessoa pode estar a exibir um comportamento contrafóbico. Por vezes até um simples pensamento sobre o objecto fóbico, pode causar ansiedade, não é preciso estar na presença da causa da fobia.

Características clínicas das fobias: as fobias caracterizam-se pelo aparecimento de crises de ansiedade extremas, quando a pessoa é exposta ao objecto ou situação, e pode apresentar rubor intenso da face, e situação generalizada de pânico,vertigens , suores intensos, suor na palma das mãos ( resposta galvânica da pele) e isolamento social.

Dependências de álcool e drogas e depressão grave podem ser aspectos associados ao agravamento das fobias quando elas existem, uma vez que só sob o efeito de substancias o sujeito suporta a ansiedade.

Quando é que se pode dizer que estamos perante uma fobia: quando o medo persiste perante um objecto, animal ou situação, ou pensamento que desperte a ansiedade. Nessas situações a ansiedade aumenta, quando a pessoa evita de forma intensa essas situações, fica num estado de ansiedade extrema, que a impede de fazer a sua vida normal no trabalho, em casa, socialmente, conduzindo a estados depressivos que se agravam ao longo do tempo.

Como se tratam as fobias: existem diversas formas de tratar as fobias, desde medicamentos a terapias de dessensibilização sistemática, entre outros, no entanto este tipo de tratamentos apenas resolve temporariamente. Os sintomas voltam mais tarde ,até de outra forma, incidindo sobre outra situação. A psicoterapia dinâmica/psicanalítica é a forma mais eficaz de tratar as fobias, na minha opinião, pelos resultados da prática clínica e pelos estudos sobre o tema, baseados nessa prática de investigação . A pessoa vai explorando com o psicoterapeuta a origem dos medos. O pano de fundo de uma fobia é sempre uma angústia de desamparo enorme, que aparece num medo deslocado (objecto fóbico), e uma depressão latente que mais cedo ou mais tarde acaba por aparecer quando o sofrimento se torna insuportável.

Ao entender e elaborar os verdadeiros motivos das fobias e, com base na relação nova de segurança que vai estabelecendo com o psicoterapeuta ou analista, durante o processo a fobia melhora bastante de inicio, desaparecendo ao fim de algum tempo. O medo desaparece. A pessoa fica mais capaz de conduzir a sua vida.



sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Depressão de inferioridade

A depressão gera-se numa relação de amor não correspondido, numa economia depressigena: em que o sujeito dá mais do que recebe. É ai que se desenvolve, forma-se como reacção à perda afectiva pontual e mais visível, mais dolorosa para a pessoa. O drama do depressivo resulta, em grande parte, de ter sido amado de um modo narcísico: a mãe amou-o como uma parte do seu próprio corpo. Ama-o como uma posse, um prolongamento de si mesma, não como um ser separado e diferente. É o amor narcísico do objecto, em que este é investido como uma peça ou um adorno do sujeito amante, tal como se ama um carro caro, ou uma jóia cara. No investimento narcísico do objecto, o sujeito investidor está em primeiro plano, é o mais importante (Coimbra de Matos, 2002). É o caso da mãe que exibe o filho para se mostrar, para obter atenção de outro, e quando o filho não corresponde ao que espera dele, ou seja, não a reconhece e não a valoriza como mãe, denigre-o e o afasta-o recusando-lhe o teu afecto. Muitas vezes é dito à criança frases deste género: “ és mau, não gosto de ti”, que, verbalizadas de uma forma continuada e ao longo do tempo geram a doença, a depressão, doença dos afectos.
Outro aspecto intimamente ligado à depressão (muito frequente em psicoterapia) é a deficiente narcisação da criança no seu papel de futura mulher e futuro homem. Entende – se por narcisar a função que a mãe e o pai tem de reconhecer o filho em todas as suas fases de desenvolvimento. Narcisar (vem de narciso e tem a ver com a beleza) significa por isso reconhecer e valorizar a beleza, algo que o ser humano precisa durante toda a sua vida, pois não existe sem o reconhecimento do outro.
Outra forma da depressão, com contornos diferentes da retirada do afecto pelo objecto, é a depressão de inferioridade, e que resulta da deficiente narcisação da criança. A pessoa não foi valorizada enquanto menina ou rapaz. Não lhe foi dito que estava bonita, e que iria arranjar muitos namorados, ou namoradas, logo não foi valorizada a sua beleza, mais tarde vai-se sentir sempre feia ou feio apesar de na maioria das vezes serem pessoas bonitas. Também não foram considerados capazes e competentes nas tarefas que faziam, ou tudo o que faziam não chegava para satisfazer os pais. Então, mais tarde, na vida adulta, nada lhe irá correr bem, irá sempre deixar escapar oportunidades por não se sentir capaz, e vai ter sempre a sensação de todos lhe terem passado na frente e serem mais capazes que eles. Estas pessoas que apresentam depressões de inferioridade vivem tristes e desvalorizadas, quando por vezes tem potencial para serem pessoas bem sucedidas a nível pessoal e profissional. Á sua volta ninguém percebe o que se passa, na verdade parece até que não tem motivos para se sentirem assim. No entanto a deficiente narcisação empurrou-os para a depressão. Este tipo de depressão não tem só a ver com falta de afecto mas com o reconhecimento da beleza e das capacidades. Se a criança foi reconhecida pelo pai e pela mãe “ estás tão bonita, vais arranjar muitos namorados” no seu papel sexual, então quando chegar á adolescência tudo irá ser mais fácil. Ai só lhe resta experimentar na prática se a mãe ou o pai tinham razão há alguns anos atrás, e vai confirmar ou infirmar a opinião parental. Um dia arranja um companheiro e vai-se sentir segura. Se pelo contrario ninguém lhe disse o quanto era bonita e lhe disse que tinha possibilidades de ter muito sucesso com o sexo oposto, então a insegurança instala-se e irá ter imensas dificuldades em segurar-se numa relação. Pela vida fora irá encontrar pessoas idênticas a ela e, a procurar essa narcisação nos homens ou mulheres que escolhe para companheiros. Essa narcisação, uma vez que é procurada de forma externa (a auto-estima do bébe começa por ser externa, através da mãe, e cada vez mais vai sendo mantida de forma interna num ser humano mentalmente saudável) irá trazer insatisfação e sentimentos depressivos, uma vez que o outro procura exactamente o mesmo, e nenhum tem algo para dar, tendo no entanto tudo para receber. A pessoa chegará a uma fase, normalmente em acontecimentos de vida significativos (nascimento de filhos, casamento, termino de licenciatura, morte de um familiar) em que o self não aguenta o esforço para manter a auto-estima e deprime.
O tratamento deste tipo de depressão passa por psicoterapia, um processo em que a pessoa vai ser narcisada e reconhecida e assim recuperar o seu valor enquanto homem e mulher, quer no seu papel de identidade de género, quer nas suas competência enquanto ser humano útil à sociedade.

*Excertos de um seminário na Sociedade de Psicologia Clínica, pelo Professor Coimbra de Matos.