quarta-feira, 12 de maio de 2010

Neurose Obsessiva



A neurose obsessiva é uma doença bastante comum, afectando um em cada 40 ou 50 indivíduos. Muitas dessas pessoas nunca foram diagnosticadas ou tratadas, embora os sintomas condicionem de forma grave a sua vida. Talvez a maioria desconheça o facto de esses sintomas constituírem uma doença que tem tratamento. A neurose obsessiva é considerada uma doença mental grave por vários motivos: está entre as dez maiores causas de incapacidade de acordo com a Organização Mundial de Saúde; aparece frequentemente em indivíduos jovens no final da adolescência – e muitas vezes começa ainda na infância – sendo raro o seu início depois dos 40 anos; geralmente é crónica e, se não for tratada, na maioria das vezes os sintomas mantêm-se pela vida fora afectando toda a família.

Os sintomas raramente desaparecem espontaneamente: o mais vulgar é que apresentem flutuações ao longo da vida, aumentando e diminuindo de intensidade, mas estando sempre presentes. Por vezes tendem a um agravamento progressivo, podendo incapacitar as pessoas para o trabalho e implicar sérias limitações à convivência com a família e sociedade, além de terem um grande e permanente sofrimento.

Preocupar-se excessivamente com limpeza, lavar as mãos a todo o momento, verificar diversas vezes portas, janelas ou o gás antes de se deitar, não usar roupas vermelhas ou pretas, não passar em certos lugares com receio de que algo mau possa acontecer depois, não sair de casa em determinadas datas, ficar aflito caso os objectos sobre o móvel não estejam dispostos de uma determinada maneira... Esses são alguns exemplos de acções popularmente consideradas “manias” e que, na verdade, são sintomas de uma neurose obsessiva.

Tenho uma neurose obsessiva ou não?

Muitos pacientes com esta patologia só reconhecem que têm uma doença ao ler ou ouvir nos órgãos de comunicação algo sobre a doença, ou se forem confrontados por algum familiar. Diversos estudos demonstram que leva, em média, mais de oito anos desde o aparecimento dos sintomas da neurose até ela ser diagnosticado por algum profissional. Se você tem dúvidas sobre se tem ou não uma neurose obsessiva procure responder às perguntas a seguir:
1- Lava-se muito?
2- Verifica de forma repetida as coisas?
3- Tem pensamentos que incomodam, e dos quais gostaria de se livrar, mas não consegue?
4- Leva muito tempo para terminar as suas actividades diárias?
5- Preocupa-se muito com ordem, simetria ou alinhamento das coisas?


O que é uma neurose obsessiva?

A neurose obsessiva é uma doença do foro mental, identificada há cem anos por Sigmund Freud e que apresenta os seguintes sintomas: compulsões a efectuar rituais diversos, pensamentos ruminantes de que se não fizer determinado acto, poderá acontecer algo, dificuldade em expressar sentimentos, ter pensamentos em circulo, fazer o contrario daquilo que pensa, agressividade escondida entre outros sintomas. à neurose obsessiva os defensores da causa biológica passaram a chamar Transtorno Obsessivo Compulsivo e incluíram-no no DSM (Manual de Classificação das doenças psiquiátricas) com essa designação. Assim a neurose obsessiva aparece no DSM descrito da seguinte forma:
O TOC é um transtorno mental incluído pela classificação da Associação Psiquiátrica Americana entre os transtornos de ansiedade. Está classificado ao lado das fobias (medo de lugares fechados, elevadores, pequenos animais – como ratos ou insectos), da fobia social (medo de expor-se em público ou diante de outras pessoas), do transtorno de pânico (ataques súbitos de ansiedade e medo de frequentar os lugares onde ocorreram os ataques), etc. Os sintomas do TOC envolvem alterações do comportamento (rituais ou compulsões, repetições, evitações), dos pensamentos (preocupações excessivas, dúvidas, pensamentos de conteúdo impróprio ou “ruim”, obsessões) e das emoções (medo, desconforto, aflição, culpa, depressão). Sua característica principal é a presença de obsessões e/ou compulsões ou rituais. Além disso, os portadores do TOC sofrem de muitos medos (de contrair doenças, de cometer falhas, de ser responsáveis por acidentes). Em função desses medos, evitam as situações que possam provocá-los – comportamento chamado de evitamento.

O que são Obsessões?

Obsessões são pensamentos, idéias, imagens, palavras, frases, números ou impulsos que invadem a consciência de forma repetitiva e persistente. Sentidas como estranhas ou impróprias, geralmente são acompanhadas de medo, angústia, culpa ou desprazer. O indivíduo obsessivo, mesmo desejando esforçando-se, não consegue afastá-las ou suprimi-las do seu pensamento. Apesar de serem consideradas absurdas ou ilógicas, as obsessões causam sofrimento e levam a pessoa a fazer algo (rituais ou compulsões) ou a evitar fazê-lo (evitamentos) para se livrar do medo ou do desconforto.
As obsessões mais comuns estão relacionadas aos seguintes aspectos: sujidade, contaminação, dúvidas, simetria, perfeição, exactidão ou alinhamento, impulsos ou pensamentos de ferir, insultar ou agredir outras pessoas, sexo ou obscenidades, armazenar, poupar, guardar coisas inúteis ou economizar, preocupações com doenças ou com o corpo, religião (pecado, culpa, escrúpulos, sacrilégios ou blasfémias) pensamento mágico (números especiais, cores, datas e horários).

O que são rituais e compulsões?

Compulsões ou rituais são comportamentos ou actos mentais voluntários e repetitivos executados em resposta a obsessões ou em virtude de regras que devem ser seguidas rigidamente. Os exemplos mais comuns são lavar as mãos, fazer verificações, contar, repetir frases ou números, alinhar, guardar ou armazenar, repetir perguntas, etc. As compulsões aliviam momentaneamente a ansiedade, levando o indivíduo a executá-las sempre que a sua mente é invadida por uma obsessão acompanhada de ansiedade. Nem sempre têm ligação real com o que desejam prevenir (p ex., alinhar os chinelos ao lado da cama antes de se deitar para que não aconteça algo de mau no dia seguinte; dar três batidas numa pedra da calçada ao sair de casa, para que a mãe não adoeça). Nesse caso, os rituais são chamados mágicos.
Os dois termos (compulsões e rituais) são utilizados praticamente como sinónimos, embora o termo “ritual” possa gerar alguma confusão na medida em que as religiões, de forma geral, adoptam comportamentos repetitivos e contagens nas suas práticas: ajoelhar-se três vezes, rezar seis ave-marias, ladainhas. Existem rituais para baptizados, casamentos, funerais, etc. Além disso, certos costumes culturais, como a cerimónia do chá entre os japoneses, o cachimbo da paz entre os índios, ou um funeral com honras militares, envolvem ritos que estão relacionados com a obsessão. Nestes casos estes ritos ou rituais são organizadores do funcionamento mental se não forem excessivos. Todos os seres humanos tem uma parte da sua personalidade mais obsessiva, mas, a diferença entre isso ser normal e patológico, está no facto de que, na patologia ser causador de sofrimento e praticado em excesso.
A neurose obsessiva quase sempre se inicia na infância, entre 9 e 11 anos e surge principalmente em indivíduos jovens até aos trinta/quarenta anos, podendo durar toda a vida, sendo sempre acompanhada de muita angústia, ansiedade, sentimentos de impotência, diminuição da auto-estima e depressão.

Quais são as causas da neurose obsessiva?

Embora esteja em “moda” dizer que todas as doenças psíquicas tem causas biológicas, o que se continua a verificar é que elas são ambientais e relacionais, ou seja adquirem-se na convivência familiar. Uma educação muito rígida e punitiva, está, vulgarmente presente nos casos que nos aparecem no consultório. Claro que os lobbies associados ás grandes farmacêuticas, transformaram a neurose obsessiva em TOC e atribuíram-lhe causas biológicas. Nunca vi ninguém com esta doença curar-se apenas com medicamentos, embora sejam necessários em muitas destas situações, mas, com terapia psicanalítica e medicamentosa os sintomas melhoram bastante e a pessoa começa a ter outra qualidade de vida, diferente da anterior.

Que tipo de medicamentos se podem tomar para a neurose obsessiva?

São medicamentos chamados antidepressivos e que possuem também uma acção anti-obsessiva. São os seguintes: Clomipramina (Anafranil), Paroxetina (Aropax, Pondera), Fluvoxamina (Luvox), Fluoxetina (Prozac, Psiquial, Verotina, Deprax, etc.), Sertralina (Zoloft, Tolrest), Citalopram (Cipramil) etc.
As doses, em geral, são mais elevadas do que as utilizadas na depressão. Não se assuste se o médico lhe recomendar doses aparentemente muito altas. No entanto tenha em consideração que primeiro deve fazer uma avaliação com o psicoterapeuta que lhe irá recomendar se é necessário recorrer a medicamentos. Esses medicamentos só podem ser receitados por um médico psiquiatra.

Quanto tempo demora até os medicamentos fazerem efeito?

Pode demorar até 12 semanas para sentir algum alívio, razão pela qual o medicamento não deve ser interrompido se o paciente não sentir alívio após as primeiras semanas de uso. O médico, em geral, procura usar inicialmente uma dose média e, caso não haja nenhuma resposta entre 4 a 8 semanas ou uma resposta parcial em 5 a 9 semanas, poderá elevar as doses para os seus níveis máximos, pois alguns pacientes só melhoram com níveis bastante elevados do medicamento. É importante salientar que 20% dos que não respondem a um medicamento poderão responder a uma segunda. Por este motivo é possível que o médico queira experimentar uma segunda droga depois de algum tempo. Também é comum a associação com outros medicamentos quando a resposta não é satisfatória. No entanto essa terapia deve ocorrer em simultâneo com a psicoterapia.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

O dia da mãe e a importância da sua presença na vida dos filhos.


Desde a Grécia antiga que se festeja o dia de Rhea a Mãe dos Deuses no inicio da Primavera. Séculos mais tarde (sec. XVII) em Inglaterra o quarto domingo da quaresma passou a ser dedicado ás mães das operárias, e nesse dia era possível ficarem em casa e desfrutarem o “Mothering Day” na companhia das suas progenitoras. Nos estados unidos em 1872, com a criação do Hino da Batalha da Republica foram dadas as primeiras indicações para a celebração desse dia. Mas, só em 1912 quando Anne Jarvis, uma jovem norte americana perdeu a mãe e entrou em depressão profunda foi lançada a primeira sugestão para a celebração do dia da mãe. Todos os anos na data que a mãe faleceu era celebrado o seu dia. Rapidamente se alastrou a toda a América e mais tarde à Europa e outros países. Hoje em dia é celebrado com uma componente comercial muito forte, incentivando ao consumo de prendas, para oferecer às mães.
A importância do papel da mãe é indiscutível hoje em dia. Com o contributo da psicanálise percebeu-se que a mãe tinha outro papel que não passava só por alimentar e cuidar. Como dizia Winnicott “a mãe é o primeiro espelho da criança”, sendo a partir desse olhar em que se revê e se constrói enquanto ser humano que se vai estruturar o seu mundo interno, criando laços de segurança que lhe permitem construir alicerces emocionais seguros para uma vida adulta saudável e produtiva nos seus diversos aspectos.
E é a partir do reflexo do espelho da mãe que a criança se vai reconhecendo, vai sentir que é amada, e vai passando a existir e construir a sua identidade.

É a mãe pelo seu discurso que vai ensinando a criança a ler e a compreender o mundo à sua volta, ajudando a criança a dar significado aquilo que a rodeia.

É a mãe que por assim dizer trata a informação que o bebé recebe, que a transforma, reduzindo os seus estados de tensão e de mal-estar e facilita a adaptação e o bem-estar do bebé.

É este trabalho mental da mãe de transformação dos estados da criança, de «continente psíquico», que salvaguarda a qualidade das suas primeiras experiências e que são decisivas para o sentimento do “EU”, e indispensáveis para a sua formação e desenvolvimento.
É a mãe a fundadora dos valores e das auto-representações da criança. É ela enquanto primeiro elemento de vinculação, que vai a criança a “ler o mundo à sua volta” e a tornar-se pessoa. A mãe é pois um importante modelo de identificação para o filho.

Porém, não podemos deixar de referir que o amor maternal é algo infinitamente complexo e imperfeito;

O amor Materno depende não só da história pessoal de cada mulher, da oportunidade da gravidez, do seu desejo da criança, da relação com o pai mas também de factores sociais, culturais e profissionais.

Não é raro verificar que em relação aos filhos, todas as mulheres repetem a história da sua própria relação com a sua mãe.
Ser mãe é pois um grande desafio. Infelizmente não há receitas para ser mãe e não há mães perfeitas!

O Ideal é uma mãe “suficientemente boa” atenta e disponível para estar presente com a criança em todas as fases do seu desenvolvimento e pela vida fora. Ser mãe é um compromisso de amor para a vida toda.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Psicoterapia psicanalitica



Uma psicoterapia é, de uma forma simples, estabelecer uma nova relação com alguém que vai ser o depositário de todas as angústias, medos, fobias, perdas, entre outras emoções que possam estar a ser prejudiciais à vida da pessoa. A decisão de procurar um psicoterapeuta é por si só factor de ansiedade, porque é uma decisão tomada com base num sofrimento que já não se pode elaborar sózinho.

Quando se procura um profissional desta área a pessoa espera que seja alguém que escute e dê sentido ao que ali a trouxe, mas, no entanto por vezes surge o receio que a dor seja ainda mais exposta e a pessoa fique mais fragilizada. Penso que quase todas as pessoas quando chegam a um consultório de psicoterapia têm noção do seu verdadeiro problema e das suas origens. Poderão estar preparadas para o enfrentarem e a psicoterapia irá decorrer de forma normal, ou, se isso ainda não é possível pela fragilidade do ego, então poderá surgir o medo que o psicoterapeuta vá desenterrar demasiado os seus fantasmas e tornar ainda menos suportável a sua existência. Esses medos levam por vezes ao abandono da psicoterapia. A psicoterapia tem um tempo para acontecer, esse tempo é pessoal e tem que ser a pessoa a perceber se é a altura certa. No entanto por vezes a pessoa apenas quer saber o que tem, ou seja, ter uma compreensão do seu sofrimento. A isso chama-se consulta terapêutica.

Por outro lado existe o medo da relação terapêutica. O que é que ele, terapeuta (ou ela) vai fazer comigo? Que irá fazer com as minhas coisas? Será que as conta a alguém? Sou maluco por estar a fazer psicoterapia? Estas questões surgem sempre embora não sejam ditas de forma espontânea muitas vezes, a não ser quando o psicoterapeuta as verbaliza ao paciente. No entanto este processo não tem que ser doloroso embora por vezes numa situação ou noutra a pessoa saia das sessões mais frágil por ter remexido em algo que estava adormecido no inconsciente.

Alguns pacientes que abandonam a terapia, sempre nas sessões iniciais, é pelo facto de não quererem ver remexido algo que sabem que têm mas ainda não estão preparados para ouvir e falar. Outras vezes será por falta de empatia com o terapeuta, porque se trata de uma relação e, ambos têm que sentir que há condições para trabalhar.
Outro entrave à procura de psicoterapia é a dificuldade que muitas pessoas têm em estabelecer uma relação, logo, isso será um obstáculo ao processo uma vez que a tendência da pessoa é fugir das sessões, por temer ficar demasiado ligada.

Portanto, este processo não é isento de medos, angústias e até incertezas. Mas até é saudável que assim seja, uma vez que as relações humanas são pejadas disso e é necessário aprender a viver com tudo isso. O que importa, se a psicoterapia tiver um desenrolar evolutivo, como se espera, é poder esclarecer todas essas dúvidas durante o processo, ganhar confiança e auto-estima, e ter certezas que existe para o terapeuta numa nova relação que se pretende transformadora para ambas as partes.

Paciente e psicoterapeuta fazem um par em que as realidades de ambos se cruzam e se ajustam numa nova relação que deverá permitir ao paciente “crescer” retomando o seu desenvolvimento parado no tempo, lá atrás, talvez na sua infância, ou quiçá numa outra fase da sua vida e assim alcançar um bem-estar que lhe permita viver bem com a sua realidade, ficando livre para amar e trabalhar como postulou Freud.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Bullying: agressor e agredido, duas faces da mesma moeda.


Já foi quase tudo dito sobre o fenómeno e todos sabemos que não é novo. O que o torna mais visivel e polémico é o facto de ser mais divulgado pelos órgãos de comunicação social, o que o torna mais presente na vida de todos. Se o leitor abrir uma das suas gavetinhas, daquelas que já nem se recorda que existam e que guardam episódios da infância, certamente se irá lembrar de episódios em que amigos e colegas de escola, ou quiçá você, foram vítimas de algum tipo de humilhação física ou psicológica, refiro-me ao tempo de escola, obviamente.
Mas, se já trabalha e observar bem à sua volta no seu local de trabalho, também irá encontrar casos que podem ser conotados com bullying, sejam eles mais explícitos ou mais escondidos. Pode ser aquele colega que aparentemente tem fama de ser muito assertivo mas na realidade gosta mais de estar bem com deus e o diabo, e que nas costas de todos diz mal de todos, ou aquele que não perde uma oportunidade de lhe chamar a atenção e lhe diz que é para o seu bem, ou aquele que pela calada faz queixas ao chefe. Enfim, são só alguns exemplos muito simples de algo que também acontece diariamente no ambiente laboral de quase todos.

Mas, o que me leva a escrever este post, não é repetir aquilo que todos já sabem, mas sim, acrescentar o meu ponto de vista que já dei noutras ocasiões, e derivado do conhecimento adquirido na prática clínica. Na semana passada recebi em consulta mais uma criança vítima de bullying, cujo sinal apresentado era vomitar e dores de barriga desde há algum tempo.Nada que fizesse supor que fosse bullying. Feita a avaliação da situação surgiu o facto, uma vez que a baixa auto-estima era evidente. Nas escolas os professores não chegam a saber de metade dos casos existentes, isto porque, como sabem, as vítimas raramente se queixam, sofrem em silêncio.

Sempre que atendo uma situação destas constacto na criança ou adolescente uma baixa auto-estima com sintomas depressivos (entre outros) e, que vem sofrendo desde a primária ou até da pré-primária de ataques por parte dos outros, sem nunca se conseguir defender. São crianças tímidas, que não manifestam agressividade normativa, e como tal ficam expostas aos outros, que, tal como eles, são crianças depressivas, mas como uma organização defensiva um pouco ao contrário. A vítima inflecte a agressividade (vira-a para si) e o agressor deflecte-a (vira para fora, para os outros), mas no entanto, possuem ambos uma estrutura depressiva.
O que se passa no mundo interno de ambos, agressor e vitima, é uma narcisação deficiente, em que um não consegue obter auto-estima suficiente de forma autónoma e fica vulnerável a todos, sempre à espera de confirmar o tipo de relação conhecida na infância, em que era sempre desvalorizada (ou não se sentia desvalorizada) ou a valorização era feita de forma negativa “… então não és capaz? Se os outros são, tu não és burro, também consegues!”. Esta criança organizou-se de forma retraída e teme o contacto com outros, não conseguindo assim defender-se.
O agressor foi também muito desvalorizado “ És mesmo burro, não tens tacto para nada!” no meio familiar e, para além das desvalorizações psicológicas poderá ter sido também vítima de maus tractos físicos, fazendo assim uma identificação ao agressor, passando a agredir os outros, para se sentir valorizado obtendo assim auto-estima pelo reconhecimento da sua superioridade em relação aos outros. O que estes agressores escondem é uma enorme fragilidade egóica que se defende através da agressão. Com estes ninguém se preocupa. São os futuros pais e mães agressores, que vão gerando mais do mesmo num ciclo vicioso quase impossível de quebrar na nossa sociedade.

Estamos perante um problema social que se foi agravando à medida que as relações pais /filhos foram ficando mais distantes, sem valores e com uma agressividade explícita, reflexo das condições económicas e sociais agravadas por políticas completamente desadequadas. Urge fazer uma intervenção de base quando as crianças são mais pequenas, portanto uma intervenção precoce, em que pais e filhos possam aproximar-se de novo, numa relação mais saudável, para obtermos assim no futuro resultados que possam reverter os factos apresentados actualmente. Porque não escolas de pais?

Por último, alerto os pais para sintomas, que, se o seu filho for uma criança mais tímida poderão estar na origem de ataques de bullying: insónias, dores de estômago, barriga, diarreia, vómitos, dor de cabeça entre outros. São sintomas físicos que aparecem quando a mente se torna incapaz de processar o sofrimento psíquico.