sábado, 9 de outubro de 2010

Sintomas da depressão.

A depressão é uma doença que afecta o físico, o humor e em consequência o pensamento. Altera a maneira como a pessoa vê o mundo e sente a realidade, entende as coisas, manifesta emoções, sente e dorme, como se sente em relação a si próprio, e como pensa sobre as coisas. É portanto uma doença em que o humor e o afecto estão perturbados, em que a apatia e falta de pensamentos positivos não podem ser alteradas apenas pela força de vontade ou esforço do sujeito.

De um modo geral a depressão é uma inibição global do sujeito, em que está afectada psiquicamente a memória, raciocínio, criatividade, vontade e funções sexuais. Para o deprimido tudo resulta num esforço enorme levando a um cansaço extremo. Os sentimentos do deprimido são interiores parecendo estranho a quem o rodeia porque é que se encontra naquele estado. Podemos definir a doença desta forma: depressão é um transtorno do humor (ou afectivo), caracterizado por uma alteração psíquica e orgânica global, com consequentes alterações na forma de valorizar a realidade da vida.

Os sintomas da depressão são muitos manifestando-se de diversas formas consoante os traços de personalidade da pessoa sejam mais neuróticos ou psicóticos. Pode surgir angustia acompanhada ou não de ansiedade, tristeza, desânimo, apatia, desinteresse e irritabilidade. O pensamento torna-se lento e preguiçoso, confundem as coisas mais simples, o surgimento de pensamentos negativos é constante e por causa desses pensamentos há uma diminuição acentuada da auto-estima. Fisicamente os sujeitos podem sentir-se indispostos, fracos, sensação de corpo pesado falta de apetite, impotência sexual, e um desânimo generalizado em todas as áreas da vida.

A depressão apresenta também sintomas físicos (muitas vezes confundidos com reumático e outras doenças), tais como dores de cabeça, náuseas provocadas pela ansiedade, dores generalizadas no corpo (braços, pernas e zona dorsal e lombar), cansaço físico, sonolência extrema ou dificuldades em adormecer, insónias, perda de peso.

Ao nível do pensamento os deprimidos tornam-se desconfiados devido às interpretações negativas que fazem acerca de tudo: uma simples brincadeira é interpretada ao pé da letra e levada a sério, passando a ser verdadeira e assumindo contornos de ofensas pessoais. Consideram que a maneira pessimista de ver as coisas, é que está certa. Nos casos muito graves a pessoa deprimida passa a projectar nos outros as ideias pessimistas que tem a seu próprio respeito (o empresário acha que os outros comentam a sua falência, a adolescente acha que estão a comentar que ela é muito feia, o marido que a sua esposa o engana, a criança que não gostam dela etc), portanto são ideias pessimistas que nascem do próprio e são projectadas nos outros.

A tendência que os deprimidos têm para generalizar os pensamentos (só os negativos) leva à diminuição da auto-estima e a fazer afirmações “a minha vida é uma desgraça”, “isto só me acontece a mim”, “tudo o que faço é mal feito”, “ninguém gosta de mim” em que excluem qualquer sentimento ou pensamento positivo das suas vidas.

São muito inseguros, e deixam de fazer certas coisas que impliquem tomar decisões por medo do ridículo e do fracasso, golpes duros para uma auto estima débil ou ausente. Estão sempre a questionar-se se o que fazem está certo ou não, não acreditando minimamente que consigam fazer as coisas.

Outro dos sintomas que afectam grandemente a vida do sujeito é a falta de sono, ou melhor a dificuldade em dormir, levando a que estejam acordados noites inteiras a ruminar nos pensamentos negativos. Muito frequentemente isolam-se, deixam de sair á rua, deixam de cuidar de si (estão vários dias sem tomar banho) e criam fobias sociais. Todos os sintomas descritos afectam muito a vida do sujeito produzindo alterações que impede o seu funcionamento normal, sendo responsável por exemplo pelo absentismo no emprego.

A depressão tem cura através da psicoterapia. No entanto, por vezes é necessário combinar a psicofarmacologia com a psicoterapia, especialmente no inicio do tratamento, e em casos muito graves.

Se acha que está deprimido faça primeiro uma avaliação do seu caso, antes de iniciar a toma de medicamentos. Por si só, não curam e a longo prazo causam danos no organismo.

A psicoterapia é um tratamento duradoiro e irreversível, ou seja, a pessoa fica com um nível de funcionamento saudável, possibilitando-lhe viver, trabalhar e amar como postulou Freud há cem anos.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Tristeza e depressão

(Espelho- Magritte)

A tristeza é uma emoção desagradável originada por uma situação de perda (morte de um ente querido, perda da saúde, perda de emprego…) portanto, uma reacção normal e muito comum que, tal como a alegria modula e dá colorido ao modo como as vivências do dia-a-dia são experimentadas. É importante fazer a distinção entre tristeza, que é o afecto, ou seja, a manifestação exterior da emoção, e o humor que é um estado de ânimo interno e mantido. Como nas outras emoções, a variabilidade interpessoal, característica do ser humano e a respectiva personalidade, influi no modo como a pessoa vive as perdas e a forma como lida com elas. Umas irritam-se e ficam zangadas, outras ficam ansiosas e tensas, outras apáticas e alheadas como se desistissem, outras passivas e dependentes de terceiros. A tristeza associada a perdas dura enquanto o processo de luto está em elaboração, nas suas diversas fases, dissipando-se à medida que à pessoa se “desliga” do ente falecido, e investe noutro, arranja outro emprego, recupera a saúde, terminando assim o processo de luto. A tristeza é uma forma normal de perturbação, fazendo parte do contínuo de vida humano cruzando factores bio-psico-sócio-culturais que deve ser compreendida e valorizada. Uma pessoa pode estar triste sem estar deprimida. No entanto, enquanto a alegria se dissipa facilmente a tristeza pode permanecer e estruturar-se na personalidade da pessoa e perdurar muito para além da duração do acontecimento que a desencadeou organizando assim o quadro clínico da depressão.

A depressão deve ser, assim, entendida como uma síndrome que pode traduzir múltiplas etiologias, desde um pólo puramente psicológico e relacional (a mais comum em consulta), de reacção a acontecimentos exteriores, por exemplo um episódio que relembre emoções e vivências recalcadas, ou quando existe uma doença física (tumores cerebrais, demências).

A depressão, ao contrário da tristeza momentânea, não costuma passar com o tempo, ou curar-se de forma espontânea. Assim, quando existe um quadro de tristeza, sem motivos aparentes, é necessário procurar ajuda psicoterapêutica. A depressão não se contrai como outra doença, por exemplo uma constipação, é uma doença dos afectos que compromete o humor da pessoa, sendo na maioria das situações incapacitante para a vida activa. A depressão tem cura.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Como se perpetuam as doenças psíquicas através das gerações.

"O terapeuta" Magritte

O legado psíquico do ser humano é transmitido de geração em geração conduzindo a estados de saúde duráveis, ou, pelo contrário, à doença que se prolonga segundo alguns estudos até á terceira geração se não houver uma interrupção do ciclo com uma psicoterapia de algum dos membros da família mais perturbado ao nível emocional.


A família funciona como um campo dinâmico no qual agem tanto os factores conscientes quanto os inconscientes, sendo que a criança desde o nascimento não é apenas influenciada pela família, mas é também um poderoso agente activo de modificações no seio familiar. Assim, quando uma criança com perturbação emocional é tratada, a relação familiar altera-se de forma significativa. O primeiro factor da transgeracionalidade a ter em conta é que cada progenitor mantém internalizações das famílias de origem com os correspondentes estereótipos e conflitos. Há uma forte tendência no sentido de que os conflitos não resolvidos pelos pais, sejam mais tarde reeditados nos filhos. É frequente uma mãe que teve uma má relação com o seu pai, menosprezar o marido enquanto repete o mesmo conflito incestuoso com o filho. Desta forma a criança torna-se uma imagem do avô, enquanto a mãe vai desvalorizando a imagem do pai, excluindo assim a figura paterna da educação da criança, tal como se sentiu rejeitada pelo pai. Vinga-se assim no marido na impossibilidade de se vingar no pai. O mesmo é válido para o homem fixado na mãe, que aos poucos vai excluindo a mulher e fixando-se na sua mãe, muitas vezes através dos filhos, passando a esposa a fazer parte dos odiados da família, ficando vingado o desprezo que a mãe lhe devota. Conflitos destes são muito comuns e escondem-se muitas vezes de outras formas, (pouco perceptíveis para quem não tem formação ao nível da psicologia), sendo devastadores da saúde psíquica das crianças, aparecendo mais tarde a depressão, a delinquência, doenças psicossomáticas etc.


Os valores culturais, afectos, ansiedades, necessidades do ego, mal entendidos, segredos ocultos, são transmissões que não passam de forma indelével nas gerações. A forma como os pais se vêem, a imagem que tem de cada um e que passam aos filhos, as necessidades de auto-estima, a definição de papéis como por exemplo a “ bode expiatório”, “orgulho de mãe”, “doente da família”, louco da família” são cumpridos dentro da família e fora dela, mantendo muitas vezes a aparente “sanidade mental” de todos os outros, que ao terem um identificado como doente, parecem estarem assim a salvo da doença, quando na realidade estão todos emersos em doença psíquica. As famílias apresentam uma variedade de estruturas que pode ir do mais saudável ao mais doente. Podem ser famílias simbióticas (vivem e fazem tudo juntos), obsessivas, narcisistas (vivem de aparência para esconder as fragilidades e obrigam os filhos a performances de perfeição), paranóides (existem perigos em todo o lado, tudo é externo ao sujeito), fóbicas (alimentam nos filhos medos que são seus, tornam-nos hipocondríacos), depressivas, sadomasoquistas, perversas ou, então apresentam-se mentalmente bem estruturadas e sadias.


Uma família bem estruturada requer algumas condições básicas, tais como, distribuição de papéis, lugares, posições e atribuições, com a manutenção de um clima de liberdade e de respeito entre os membros. É necessários existir limites e fronteiras na relação dos membros familiares. Caso isso não exista e tudo fique confuso, borrado, em que se perdem os direitos, deveres e privilégios, como os lugares que cabem a um pai e a um filho então a insanidade mental está criada e vai passando de geração em geração. É vulgar ouvir dizer de algumas famílias que se constituem doentes “ são todos assim, o avô também se matou, a mãe era depressiva”, no caso de famílias depressivas, ou em famílias psicóticas que gerações após geração vão surgindo casos de esquizofrenia em número considerável para ser considerado normal. São famílias que se organizam num psiquismo doente, passando aos filhos modelos de relação baseados em pressupostos de doença, muitas vezes não visível socialmente mas que se traduzem por exemplo em visitas exageradas a médicos, baixas, hospitalizações, doenças psíquicas com expressão física (eczemas, asma, colites, fibromialgia…).

Qualquer das situações descritas vai influir na formação do psiquismo da criança, passando de pais para filhos numa transgeracionalidade que é preciso travar, para que a sociedade se constitua sadia.

Boas férias a todos os leitores

domingo, 27 de junho de 2010

Doenças psicossomáticas

Cerca de oitenta por cento das doenças são de origem psicossomática.

O que são doenças psicossomáticas?

São doenças do foro psicológico com expressão física. Pelo facto da sua génese ser psíquica não deixam de causar mal-estar ao nível físico e não são para descurar ou desvalorizar. São exemplos dessas doenças a asma, eczemas, as dores de cabeça, os problemas gástricos e abdominais, entre outros. A relação negativa desenvolvida no seio da família e nomeadamente com a mãe nos primeiros tempos de vida está na origem de somatizações posteriores e do adoecer psíquico. O conflito psíquico que a criança apresenta e que não consegue ou não pode verbalizar, por ser na maioria das vezes inconsciente, assume manifestações físicas que provocam um enorme sofrimento quase sempre ao longo da vida, porque a componente psíquica é quase sempre relegada para segundo plano, por outros técnicos de saúde que insistem apenas no tratamento físico.


São exemplos de manifestações somáticas as dores de barriga das crianças que não tem causa física, dores de cabeça (as vulgares enxaquecas dos adultos), ataques de asma, infecções crónicas do aparelho respiratório que não desaparecem apesar de já terem tomado vários antibióticos, eczemas que persistem uma vida inteira, alguns problemas de pele, as dores físicas (braços, pernas, tronco) decorrentes de estados ansiosos e depressivos, a denominada fibromialgia etc. A recusa e a resistência das pessoas a pensarem, com vidas orientadas para a acção e não para a reflexão, leva a que só procurem causas físicas e não psíquicas para muitas doenças. Os sintomas e a doença arrastem-se uma vida inteira e a possibilidade de cura ou melhoras significativas possíveis através de uma psicoterapia diminuem à medida que a idade aumenta.


Quem é psiquicamente saudável e teve uma relação suficientemente boa com os pais, foi amado, então a hipótese de desenvolver doenças são menores. As investigações psicossomáticas revelam que quanto mais amor existe menos doenças se desenvolvem, tal como defende Coimbra de Matos e a prática clínica nos revela. Por detrás de todas as psicopatologias existe sempre a falta de amor.