terça-feira, 8 de Dezembro de 2009

A depressão de Natal



Nesta altura, em que se apela ao consumo, que funciona para muitos como um investimento libidinal (logo preenche a auto-estima), não é invulgar aparecerem sintomas depressivos em pessoas que mentem uma depressão latente há muito. Sendo uma época que apela à reunião familiar, trará certamente para quem perdeu entes queridos e ainda não fez o luto, ou esse luto ficou enquistado, qual doença maligna que impede a vida de caminhar, um peso acrescido de lembranças de perda e sofrimento, por falta dessa pessoa, seja marido, filho, mãe etc.
Por outro lado há pessoas que vivem muito sozinhas, quer por terem uma família reduzida, terem enviuvado, divorciado, entre outras situações, quer por se terem encerrado numa vida de solidão em consequência de algum problema psicológico e/ou social que lhe surgiu na vida. Nesta época em que a televisão e os seus programas se dedicam quase em exclusivo a temas da família, solidariedade, problemas sociais e põem o seu enfoque nos mais desprotegidos, poderá suscitar em quem vive em circunstâncias idênticas, ou seja mais susceptível, sentimentos de solidão e tristeza, sintomas que prolongados no tempo podem conduzir à depressão.
O Natal sendo uma época de festejos, na nossa cultura, é também uma época de contrastes, ao nível da saúde mental, uma vez que é nesta altura que surgem as grandes depressões, uma vez que se juntam uma série de factores (alguns já mencionados atrás), tais como velhas rivalidades em relação a irmãos, sentimentos de desamor em relação a um pai, mãe, avós, tios etc, logo, está longe de ser uma época consensual no que respeita a sentimentos, uma vez que cada um sente as relações com a família de forma diferente. Assim, poderá ser uma época em que é frequente surgirem sentimentos de estranheza, desadequação, e de raiva face a um mundo que festeja, quando poderá existir para algumas pessoas, um sentimento de desamor, tristeza e solidão que em nada se adequa ao que a época apela.
Poderão contribuir para o surgimento da depressão nesta época, as expectativas não realizadas, uma vez que é final de ano e se começam a fazer balanços internos, daquilo que se desejava para essa ano, o stress, as lembranças de natais passados, a pressão social para o consumo excessivo quando por vezes não existe dinheiro disponível, dificuldades em estar com a família, falta de alguém que já faleceu entre outras situações.

domingo, 22 de Novembro de 2009

Fobias e ansiedade

"O grito" Van Gogh

A palavra fobia deriva de Phobos, deusa grega do medo. Uma fobia é um medo persistente e irracional que resulta no evitamento de forma consciente de objectos, actividades, situações ou animais que são temidos. A fobia consiste num aumento da ansiedade, até limites que impedem a pessoa de funcionar normalmente e que causa um mal-estar enorme. Existem diversos tipos de fobia: medo dos espaços fechados e abertos, medo de aranhas, cobras, cães, alturas, sangue, medo de morrer, medo da vida social, entre outras. No entanto as fobias são medos deslocados sobre algo que existe ao nível inconsciente, logo são deslocados sobre um objecto do consciente, mais suportável e que permite à pessoa ir funcionando, ou seja, são conflitos psicológicos internos relacionados com angustias de desamparo, que aparecem sobre a forma de ansiedade face a algo ( objecto fobigeno)e, que se traduzem em medo e evitamento. Pode existir ainda uma atitude contrafóbica, a pessoa em vez de evitar o medo, enfrenta-o. São exemplos disso, os desportos perigosos, em que a pessoa pode estar a exibir um comportamento contrafóbico. Por vezes até um simples pensamento sobre o objecto fóbico, pode causar ansiedade, não é preciso estar na presença da causa da fobia.

Características clínicas das fobias: as fobias caracterizam-se pelo aparecimento de crises de ansiedade extremas, quando a pessoa é exposta ao objecto ou situação, e pode apresentar rubor intenso da face, e situação generalizada de pânico,vertigens , suores intensos, suor na palma das mãos ( resposta galvânica da pele) e isolamento social.

Dependências de álcool e drogas e depressão grave podem ser aspectos associados ao agravamento das fobias quando elas existem, uma vez que só sob o efeito de substancias o sujeito suporta a ansiedade.

Quando é que se pode dizer que estamos perante uma fobia: quando o medo persiste perante um objecto, animal ou situação, ou pensamento que desperte a ansiedade. Nessas situações a ansiedade aumenta, quando a pessoa evita de forma intensa essas situações, fica num estado de ansiedade extrema, que a impede de fazer a sua vida normal no trabalho, em casa, socialmente, conduzindo a estados depressivos que se agravam ao longo do tempo.

Como se tratam as fobias: existem diversas formas de tratar as fobias, desde medicamentos a terapias de dessensibilização sistemática, entre outros, no entanto este tipo de tratamentos apenas resolve temporariamente. Os sintomas voltam mais tarde ,até de outra forma, incidindo sobre outra situação. A psicoterapia dinâmica/psicanalítica é a forma mais eficaz de tratar as fobias, na minha opinião, pelos resultados da prática clínica e pelos estudos sobre o tema, baseados nessa prática de investigação . A pessoa vai explorando com o psicoterapeuta a origem dos medos. O pano de fundo de uma fobia é sempre uma angústia de desamparo enorme, que aparece num medo deslocado (objecto fóbico), e uma depressão latente que mais cedo ou mais tarde acaba por aparecer quando o sofrimento se torna insuportável.

Ao entender e elaborar os verdadeiros motivos das fobias e, com base na relação nova de segurança que vai estabelecendo com o psicoterapeuta ou analista, durante o processo a fobia melhora bastante de inicio, desaparecendo ao fim de algum tempo. O medo desaparece. A pessoa fica mais capaz de conduzir a sua vida.



terça-feira, 3 de Novembro de 2009

O processo da psicoterapia:aspectos.

"A metamorfose de narciso" Salvador Dali
A Psicologia clínica dinâmica e a Psicoterapia de orientação analítica

A psicologia clínica dinâmica ou psicodinâmica é a observação e a compreensão da especificidade de cada ser humano, de estar em conflito com o mundo, com os outros, com ele próprio. Designa ainda o estudo subjectivo dos sentimentos, das emoções, dos estados interiores mas também o estudo objectivo do conjunto dos fenómenos mentais e das leis que os regem.
A psicodinâmica pertence ao campo da psicologia e da psicopatologia, hoje em dia qualifica concepções derivadas da psicanálise, no entanto, historicamente registou-se no campo da psiquiatria. É o estudo do ser humano procurando resolver os seus conflitos, quer no sentido íntimo dos seus comportamentos quer ainda nas cognições. Interessa-se pela interioridade dos sujeitos, o inconsciente e seus conflitos. Esta é a linha teórica subjacente há minha prática profissional.

O que eu faço na consulta como Psicóloga clínica e Psicoterapeuta.

Ajudo a pessoa a pensar sobre si, no conjunto das suas reacções, face à vida, e nas relações com outros. Faço uma compreensão do problema que devolvo ao paciente quando me é solicitado e me parece que pode ajudar a pessoa, dou sentido ao que a pessoa traz para uma primeira consulta. Posteriormente nas sessões de psicoterapia regulares, ajudo a estabelecer as funções do ego facilitando esse processo, fortalecer ou repor a auto-estima, lidar melhor com os conflitos internos, entre outras situações, deixando a pessoa livre para amar e trabalhar como postulou Freud.

Psicoterapia, Psicologia Clínica e Psiquiatria. Qual a relação?

O Psicólogo Clínico é o profissional que se licenciou em psicologia e a sua actuação é ao nível da compreensão dos problemas psicológicos e avaliação psicológica e aconselhamento face ao observado.
O Psicoterapeuta é o profissional que se licenciou em psicologia clínica ou psiquiatria e que fez a sua especialização em psicoterapia numa sociedade credenciada para o efeito e que está habilitado a diagnosticar e intervir na modificação dos problemas psíquicos apresentados pelo paciente.
O psiquiatra é médico especializado em psiquiatria e a sua função é avaliar e intervir ao nível da farmacologia (receitar medicamentos).
O psicoterapeuta quando é necessário trabalha em conjunto com o psiquiatra para que a psicoterapia progrida em melhores condições, ou seja, o paciente é medicado para que seja possível fazer a psicoterapia. Na maioria da situações as pessoas procuram primeiro o psiquiatra que quase nunca recomenda que faça psicoterapia, levando a que o problema raramente fique resolvido apenas pela toma dos medicamentos. É conveniente consultar primeiro um psicoterapeuta que avalia se é necessário recorrer aos fármacos ou não. A terapia farmacológica apenas é eficaz acompanhada de um processo de psicoterapia.

Objectivos das sessões de Psicoterapia.

A minha intervenção baseada na Psicologia Clínica Dinâmica, tem como objectivo diminuir os sintomas que o cliente apresenta, com base na compreensão das causas que os motivaram, muitas delas desde o nascimento. Esta linha teórica aplica-se a todas as faixas etárias. Por isso neste consultório atendemos crianças, adolescentes, adultos e idosos. Não há idade para começar uma psicoterapia e os seus benefícios são visíveis independentemente da faixa etária.

Duração do tratamento.

A duração depende do pedido, do grau dos sintomas e da capacidade que a pessoa tem de pensar sobre si. Em média leva cerca de um ano, para que a pessoa possa funcionar sozinha, sem a ajuda do terapeuta. Mas, se a pessoa se quiser conhecer mais profundamente poderá prolongar a terapia. Esta situação aplica-se apenas a casos em que a pessoa funciona sozinha apesar de ter alguns conflitos internos.
A psicoterapia poderá ainda ter uma intervenção breve ( mais ou menos 20 sessões) em que depois da remoção dos sintomas a pessoa fica bem para continuar a sua vida de forma mais autónoma.
Em situações mais perturbadoras (esquizofrenias e outras) depende sempre dos factores já mencionados, da medicação que o paciente utiliza e da sua resposta a esse medicamento, da colaboração da família, da sociedade entre outros factores. No entanto serão sempre situações de psicoterapia mais prolongadas no tempo.

Contrato terapêutico.

A minha prática profissional, enquanto psicóloga clínica tem por base, um contrato terapêutico verbal, entre mim e o cliente, para que haja um compromisso de frequência das sessões.
O sucesso da terapia requer continuidade. Não se cura ninguém apenas em duas ou três sessões. Se o paciente não comparecer não poderá melhorar. O objectivo deste contrato é prevenir fugas ao tratamento. Assim, no contrato estão escritos os direitos do cliente, a forma como se processa a terapia e o preço das sessões que tem uma base mínima mas que pode ser acordado com o paciente. As sessões são sempre pagas mesmo que o cliente falte. Nas sessões que eu falte não são pagas. O paciente poderá dar por terminado o tratamento quando o desejar, apesar do contrato verbal.

Psicoterapia com crianças e adolescentes.

Para além da especificidade desta psicoterapia (é feita através do jogo e do brincar) a família será sempre incluída no processo terapêutico, pois considero fundamental a sua participação, sem a qual a criança ou adolescente não poderá ultrapassar os problemas.

Psicoterapia com adultos e idosos.

Esta psicoterapia é feita face a face, em que eu e o cliente estamos sentados (em sofás) e na frente um do outro, com base na narrativa do paciente e utilizando técnicas especificas da psicoterapia.

Aconselhamento a pais e educadores.

A minha função enquanto psicóloga clínica e psicoterapeuta é também ajudar os pais a perceber o desenvolvimento dos filhos nas diversas etapas que quase sempre são normativas, e que poderão por vezes serem problemáticas sem serem patológicas, mas que podem assustar os pais, ou pelo menos deixarem duvidas que convêm serem esclarecidas para que os pais fiquem mais tranquilos. Assim, faço sessões de aconselhamento, sem carácter terapêutico mas em espaço de consulta. Quando for necessário também poderei encaminhar para outro técnico se o problema não for da minha área.

Intervenção em casos de psicologia educacional.

Outra vertente das minhas funções, enquanto psicóloga é a área da educação, no despiste de problemas da aprendizagem do comportamento, alunos com necessidades específicas de educação, e outras problemáticas associadas à educação e práticas pedagógicas em contexto escolar e familiar.


Grupos de desenvolvimento pessoal.

Outra das vertentes da minha intervenção como psicóloga é com grupos. Para quem não quer fazer terapia mas quer conhecer-se melhor, valorizar-se e aumentar a sua auto-estima organizo grupos de desenvolvimento pessoal, uma vez por ano com a duração de quinze sessões em que são trabalhadas algumas competências pessoais e sociais, cujo objectivo são a valorização da pessoa, o sentir-se bem consigo própria e tornar-se mais capaz e lidar com algumas situações de vida, ou entende-las melhor.

Consulta terapêutica.

A consulta terapêutica não tem como objectivo o tratamento mas uma compreensão do problema. Normalmente realiza-se uma a duas sessões e a pessoa fica com a noção do seu real problema ficando com informação suficiente para decidir se quer fazer psicoterapia.

A minha Formação como profissional

Psicoterapeuta Psicanalítica em especialização na Sociedade Portuguesa de Psicologia Clínica em Lisboa.
Licenciada pela Universidade de Évora em Psicologia Clínica (anterior a Bolonha).
Formadora com CAP (Certificado de Aptidão Profissional), há 17 anos, certificada pelo IEFP, na reabilitação profissional de pessoas com deficiência e outras problemáticas num Centro de Reabilitação Profissional.
Como psicóloga Clínica faço formação nas áreas do: desenvolvimento infantil (desenvolvimento emocional, disciplina, entre outras), nas áreas da adolescência, da gravidez e da maternidade, da adulticia e terceira idade, e da deficiência.

sexta-feira, 9 de Outubro de 2009

Depressão de inferioridade

A depressão gera-se numa relação de amor não correspondido, numa economia depressigena: em que o sujeito dá mais do que recebe. É ai que se desenvolve, forma-se como reacção à perda afectiva pontual e mais visível, mais dolorosa para a pessoa. O drama do depressivo resulta, em grande parte, de ter sido amado de um modo narcísico: a mãe amou-o como uma parte do seu próprio corpo. Ama-o como uma posse, um prolongamento de si mesma, não como um ser separado e diferente. É o amor narcísico do objecto, em que este é investido como uma peça ou um adorno do sujeito amante, tal como se ama um carro caro, ou uma jóia cara. No investimento narcísico do objecto, o sujeito investidor está em primeiro plano, é o mais importante (Coimbra de Matos, 2002). É o caso da mãe que exibe o filho para se mostrar, para obter atenção de outro, e quando o filho não corresponde ao que espera dele, ou seja, não a reconhece e não a valoriza como mãe, denigre-o e o afasta-o recusando-lhe o teu afecto. Muitas vezes é dito à criança frases deste género: “ és mau, não gosto de ti”, que, verbalizadas de uma forma continuada e ao longo do tempo geram a doença, a depressão, doença dos afectos.
Outro aspecto intimamente ligado à depressão (muito frequente em psicoterapia) é a deficiente narcisação da criança no seu papel de futura mulher e futuro homem. Entende – se por narcisar a função que a mãe e o pai tem de reconhecer o filho em todas as suas fases de desenvolvimento. Narcisar (vem de narciso e tem a ver com a beleza) significa por isso reconhecer e valorizar a beleza, algo que o ser humano precisa durante toda a sua vida, pois não existe sem o reconhecimento do outro.
Outra forma da depressão, com contornos diferentes da retirada do afecto pelo objecto, é a depressão de inferioridade, e que resulta da deficiente narcisação da criança. A pessoa não foi valorizada enquanto menina ou rapaz. Não lhe foi dito que estava bonita, e que iria arranjar muitos namorados, ou namoradas, logo não foi valorizada a sua beleza, mais tarde vai-se sentir sempre feia ou feio apesar de na maioria das vezes serem pessoas bonitas. Também não foram considerados capazes e competentes nas tarefas que faziam, ou tudo o que faziam não chegava para satisfazer os pais. Então, mais tarde, na vida adulta, nada lhe irá correr bem, irá sempre deixar escapar oportunidades por não se sentir capaz, e vai ter sempre a sensação de todos lhe terem passado na frente e serem mais capazes que eles. Estas pessoas que apresentam depressões de inferioridade vivem tristes e desvalorizadas, quando por vezes tem potencial para serem pessoas bem sucedidas a nível pessoal e profissional. Á sua volta ninguém percebe o que se passa, na verdade parece até que não tem motivos para se sentirem assim. No entanto a deficiente narcisação empurrou-os para a depressão. Este tipo de depressão não tem só a ver com falta de afecto mas com o reconhecimento da beleza e das capacidades. Se a criança foi reconhecida pelo pai e pela mãe “ estás tão bonita, vais arranjar muitos namorados” no seu papel sexual, então quando chegar á adolescência tudo irá ser mais fácil. Ai só lhe resta experimentar na prática se a mãe ou o pai tinham razão há alguns anos atrás, e vai confirmar ou infirmar a opinião parental. Um dia arranja um companheiro e vai-se sentir segura. Se pelo contrario ninguém lhe disse o quanto era bonita e lhe disse que tinha possibilidades de ter muito sucesso com o sexo oposto, então a insegurança instala-se e irá ter imensas dificuldades em segurar-se numa relação. Pela vida fora irá encontrar pessoas idênticas a ela e, a procurar essa narcisação nos homens ou mulheres que escolhe para companheiros. Essa narcisação, uma vez que é procurada de forma externa (a auto-estima do bébe começa por ser externa, através da mãe, e cada vez mais vai sendo mantida de forma interna num ser humano mentalmente saudável) irá trazer insatisfação e sentimentos depressivos, uma vez que o outro procura exactamente o mesmo, e nenhum tem algo para dar, tendo no entanto tudo para receber. A pessoa chegará a uma fase, normalmente em acontecimentos de vida significativos (nascimento de filhos, casamento, termino de licenciatura, morte de um familiar) em que o self não aguenta o esforço para manter a auto-estima e deprime.
O tratamento deste tipo de depressão passa por psicoterapia, um processo em que a pessoa vai ser narcisada e reconhecida e assim recuperar o seu valor enquanto homem e mulher, quer no seu papel de identidade de género, quer nas suas competência enquanto ser humano útil à sociedade.

*Excertos de um seminário na Sociedade de Psicologia Clínica, pelo Professor Coimbra de Matos.