segunda-feira, 5 de julho de 2010

Como se perpetuam as doenças psíquicas através das gerações.

"O terapeuta" Magritte

O legado psíquico do ser humano é transmitido de geração em geração conduzindo a estados de saúde duráveis, ou, pelo contrário, à doença que se prolonga segundo alguns estudos até á terceira geração se não houver uma interrupção do ciclo com uma psicoterapia de algum dos membros da família mais perturbado ao nível emocional.


A família funciona como um campo dinâmico no qual agem tanto os factores conscientes quanto os inconscientes, sendo que a criança desde o nascimento não é apenas influenciada pela família, mas é também um poderoso agente activo de modificações no seio familiar. Assim, quando uma criança com perturbação emocional é tratada, a relação familiar altera-se de forma significativa. O primeiro factor da transgeracionalidade a ter em conta é que cada progenitor mantém internalizações das famílias de origem com os correspondentes estereótipos e conflitos. Há uma forte tendência no sentido de que os conflitos não resolvidos pelos pais, sejam mais tarde reeditados nos filhos. É frequente uma mãe que teve uma má relação com o seu pai, menosprezar o marido enquanto repete o mesmo conflito incestuoso com o filho. Desta forma a criança torna-se uma imagem do avô, enquanto a mãe vai desvalorizando a imagem do pai, excluindo assim a figura paterna da educação da criança, tal como se sentiu rejeitada pelo pai. Vinga-se assim no marido na impossibilidade de se vingar no pai. O mesmo é válido para o homem fixado na mãe, que aos poucos vai excluindo a mulher e fixando-se na sua mãe, muitas vezes através dos filhos, passando a esposa a fazer parte dos odiados da família, ficando vingado o desprezo que a mãe lhe devota. Conflitos destes são muito comuns e escondem-se muitas vezes de outras formas, (pouco perceptíveis para quem não tem formação ao nível da psicologia), sendo devastadores da saúde psíquica das crianças, aparecendo mais tarde a depressão, a delinquência, doenças psicossomáticas etc.


Os valores culturais, afectos, ansiedades, necessidades do ego, mal entendidos, segredos ocultos, são transmissões que não passam de forma indelével nas gerações. A forma como os pais se vêem, a imagem que tem de cada um e que passam aos filhos, as necessidades de auto-estima, a definição de papéis como por exemplo a “ bode expiatório”, “orgulho de mãe”, “doente da família”, louco da família” são cumpridos dentro da família e fora dela, mantendo muitas vezes a aparente “sanidade mental” de todos os outros, que ao terem um identificado como doente, parecem estarem assim a salvo da doença, quando na realidade estão todos emersos em doença psíquica. As famílias apresentam uma variedade de estruturas que pode ir do mais saudável ao mais doente. Podem ser famílias simbióticas (vivem e fazem tudo juntos), obsessivas, narcisistas (vivem de aparência para esconder as fragilidades e obrigam os filhos a performances de perfeição), paranóides (existem perigos em todo o lado, tudo é externo ao sujeito), fóbicas (alimentam nos filhos medos que são seus, tornam-nos hipocondríacos), depressivas, sadomasoquistas, perversas ou, então apresentam-se mentalmente bem estruturadas e sadias.


Uma família bem estruturada requer algumas condições básicas, tais como, distribuição de papéis, lugares, posições e atribuições, com a manutenção de um clima de liberdade e de respeito entre os membros. É necessários existir limites e fronteiras na relação dos membros familiares. Caso isso não exista e tudo fique confuso, borrado, em que se perdem os direitos, deveres e privilégios, como os lugares que cabem a um pai e a um filho então a insanidade mental está criada e vai passando de geração em geração. É vulgar ouvir dizer de algumas famílias que se constituem doentes “ são todos assim, o avô também se matou, a mãe era depressiva”, no caso de famílias depressivas, ou em famílias psicóticas que gerações após geração vão surgindo casos de esquizofrenia em número considerável para ser considerado normal. São famílias que se organizam num psiquismo doente, passando aos filhos modelos de relação baseados em pressupostos de doença, muitas vezes não visível socialmente mas que se traduzem por exemplo em visitas exageradas a médicos, baixas, hospitalizações, doenças psíquicas com expressão física (eczemas, asma, colites, fibromialgia…).

Qualquer das situações descritas vai influir na formação do psiquismo da criança, passando de pais para filhos numa transgeracionalidade que é preciso travar, para que a sociedade se constitua sadia.

Boas férias a todos os leitores

domingo, 27 de junho de 2010

Doenças psicossomáticas

Cerca de oitenta por cento das doenças são de origem psicossomática.

O que são doenças psicossomáticas?

São doenças do foro psicológico com expressão física. Pelo facto da sua génese ser psíquica não deixam de causar mal-estar ao nível físico e não são para descurar ou desvalorizar. São exemplos dessas doenças a asma, eczemas, as dores de cabeça, os problemas gástricos e abdominais, entre outros. A relação negativa desenvolvida no seio da família e nomeadamente com a mãe nos primeiros tempos de vida está na origem de somatizações posteriores e do adoecer psíquico. O conflito psíquico que a criança apresenta e que não consegue ou não pode verbalizar, por ser na maioria das vezes inconsciente, assume manifestações físicas que provocam um enorme sofrimento quase sempre ao longo da vida, porque a componente psíquica é quase sempre relegada para segundo plano, por outros técnicos de saúde que insistem apenas no tratamento físico.


São exemplos de manifestações somáticas as dores de barriga das crianças que não tem causa física, dores de cabeça (as vulgares enxaquecas dos adultos), ataques de asma, infecções crónicas do aparelho respiratório que não desaparecem apesar de já terem tomado vários antibióticos, eczemas que persistem uma vida inteira, alguns problemas de pele, as dores físicas (braços, pernas, tronco) decorrentes de estados ansiosos e depressivos, a denominada fibromialgia etc. A recusa e a resistência das pessoas a pensarem, com vidas orientadas para a acção e não para a reflexão, leva a que só procurem causas físicas e não psíquicas para muitas doenças. Os sintomas e a doença arrastem-se uma vida inteira e a possibilidade de cura ou melhoras significativas possíveis através de uma psicoterapia diminuem à medida que a idade aumenta.


Quem é psiquicamente saudável e teve uma relação suficientemente boa com os pais, foi amado, então a hipótese de desenvolver doenças são menores. As investigações psicossomáticas revelam que quanto mais amor existe menos doenças se desenvolvem, tal como defende Coimbra de Matos e a prática clínica nos revela. Por detrás de todas as psicopatologias existe sempre a falta de amor.



quarta-feira, 12 de maio de 2010

Neurose Obsessiva



A neurose obsessiva é uma doença bastante comum, afectando um em cada 40 ou 50 indivíduos. Muitas dessas pessoas nunca foram diagnosticadas ou tratadas, embora os sintomas condicionem de forma grave a sua vida. Talvez a maioria desconheça o facto de esses sintomas constituírem uma doença que tem tratamento. A neurose obsessiva é considerada uma doença mental grave por vários motivos: está entre as dez maiores causas de incapacidade de acordo com a Organização Mundial de Saúde; aparece frequentemente em indivíduos jovens no final da adolescência – e muitas vezes começa ainda na infância – sendo raro o seu início depois dos 40 anos; geralmente é crónica e, se não for tratada, na maioria das vezes os sintomas mantêm-se pela vida fora afectando toda a família.

Os sintomas raramente desaparecem espontaneamente: o mais vulgar é que apresentem flutuações ao longo da vida, aumentando e diminuindo de intensidade, mas estando sempre presentes. Por vezes tendem a um agravamento progressivo, podendo incapacitar as pessoas para o trabalho e implicar sérias limitações à convivência com a família e sociedade, além de terem um grande e permanente sofrimento.

Preocupar-se excessivamente com limpeza, lavar as mãos a todo o momento, verificar diversas vezes portas, janelas ou o gás antes de se deitar, não usar roupas vermelhas ou pretas, não passar em certos lugares com receio de que algo mau possa acontecer depois, não sair de casa em determinadas datas, ficar aflito caso os objectos sobre o móvel não estejam dispostos de uma determinada maneira... Esses são alguns exemplos de acções popularmente consideradas “manias” e que, na verdade, são sintomas de uma neurose obsessiva.

Tenho uma neurose obsessiva ou não?

Muitos pacientes com esta patologia só reconhecem que têm uma doença ao ler ou ouvir nos órgãos de comunicação algo sobre a doença, ou se forem confrontados por algum familiar. Diversos estudos demonstram que leva, em média, mais de oito anos desde o aparecimento dos sintomas da neurose até ela ser diagnosticado por algum profissional. Se você tem dúvidas sobre se tem ou não uma neurose obsessiva procure responder às perguntas a seguir:
1- Lava-se muito?
2- Verifica de forma repetida as coisas?
3- Tem pensamentos que incomodam, e dos quais gostaria de se livrar, mas não consegue?
4- Leva muito tempo para terminar as suas actividades diárias?
5- Preocupa-se muito com ordem, simetria ou alinhamento das coisas?


O que é uma neurose obsessiva?

A neurose obsessiva é uma doença do foro mental, identificada há cem anos por Sigmund Freud e que apresenta os seguintes sintomas: compulsões a efectuar rituais diversos, pensamentos ruminantes de que se não fizer determinado acto, poderá acontecer algo, dificuldade em expressar sentimentos, ter pensamentos em circulo, fazer o contrario daquilo que pensa, agressividade escondida entre outros sintomas. à neurose obsessiva os defensores da causa biológica passaram a chamar Transtorno Obsessivo Compulsivo e incluíram-no no DSM (Manual de Classificação das doenças psiquiátricas) com essa designação. Assim a neurose obsessiva aparece no DSM descrito da seguinte forma:
O TOC é um transtorno mental incluído pela classificação da Associação Psiquiátrica Americana entre os transtornos de ansiedade. Está classificado ao lado das fobias (medo de lugares fechados, elevadores, pequenos animais – como ratos ou insectos), da fobia social (medo de expor-se em público ou diante de outras pessoas), do transtorno de pânico (ataques súbitos de ansiedade e medo de frequentar os lugares onde ocorreram os ataques), etc. Os sintomas do TOC envolvem alterações do comportamento (rituais ou compulsões, repetições, evitações), dos pensamentos (preocupações excessivas, dúvidas, pensamentos de conteúdo impróprio ou “ruim”, obsessões) e das emoções (medo, desconforto, aflição, culpa, depressão). Sua característica principal é a presença de obsessões e/ou compulsões ou rituais. Além disso, os portadores do TOC sofrem de muitos medos (de contrair doenças, de cometer falhas, de ser responsáveis por acidentes). Em função desses medos, evitam as situações que possam provocá-los – comportamento chamado de evitamento.

O que são Obsessões?

Obsessões são pensamentos, idéias, imagens, palavras, frases, números ou impulsos que invadem a consciência de forma repetitiva e persistente. Sentidas como estranhas ou impróprias, geralmente são acompanhadas de medo, angústia, culpa ou desprazer. O indivíduo obsessivo, mesmo desejando esforçando-se, não consegue afastá-las ou suprimi-las do seu pensamento. Apesar de serem consideradas absurdas ou ilógicas, as obsessões causam sofrimento e levam a pessoa a fazer algo (rituais ou compulsões) ou a evitar fazê-lo (evitamentos) para se livrar do medo ou do desconforto.
As obsessões mais comuns estão relacionadas aos seguintes aspectos: sujidade, contaminação, dúvidas, simetria, perfeição, exactidão ou alinhamento, impulsos ou pensamentos de ferir, insultar ou agredir outras pessoas, sexo ou obscenidades, armazenar, poupar, guardar coisas inúteis ou economizar, preocupações com doenças ou com o corpo, religião (pecado, culpa, escrúpulos, sacrilégios ou blasfémias) pensamento mágico (números especiais, cores, datas e horários).

O que são rituais e compulsões?

Compulsões ou rituais são comportamentos ou actos mentais voluntários e repetitivos executados em resposta a obsessões ou em virtude de regras que devem ser seguidas rigidamente. Os exemplos mais comuns são lavar as mãos, fazer verificações, contar, repetir frases ou números, alinhar, guardar ou armazenar, repetir perguntas, etc. As compulsões aliviam momentaneamente a ansiedade, levando o indivíduo a executá-las sempre que a sua mente é invadida por uma obsessão acompanhada de ansiedade. Nem sempre têm ligação real com o que desejam prevenir (p ex., alinhar os chinelos ao lado da cama antes de se deitar para que não aconteça algo de mau no dia seguinte; dar três batidas numa pedra da calçada ao sair de casa, para que a mãe não adoeça). Nesse caso, os rituais são chamados mágicos.
Os dois termos (compulsões e rituais) são utilizados praticamente como sinónimos, embora o termo “ritual” possa gerar alguma confusão na medida em que as religiões, de forma geral, adoptam comportamentos repetitivos e contagens nas suas práticas: ajoelhar-se três vezes, rezar seis ave-marias, ladainhas. Existem rituais para baptizados, casamentos, funerais, etc. Além disso, certos costumes culturais, como a cerimónia do chá entre os japoneses, o cachimbo da paz entre os índios, ou um funeral com honras militares, envolvem ritos que estão relacionados com a obsessão. Nestes casos estes ritos ou rituais são organizadores do funcionamento mental se não forem excessivos. Todos os seres humanos tem uma parte da sua personalidade mais obsessiva, mas, a diferença entre isso ser normal e patológico, está no facto de que, na patologia ser causador de sofrimento e praticado em excesso.
A neurose obsessiva quase sempre se inicia na infância, entre 9 e 11 anos e surge principalmente em indivíduos jovens até aos trinta/quarenta anos, podendo durar toda a vida, sendo sempre acompanhada de muita angústia, ansiedade, sentimentos de impotência, diminuição da auto-estima e depressão.

Quais são as causas da neurose obsessiva?

Embora esteja em “moda” dizer que todas as doenças psíquicas tem causas biológicas, o que se continua a verificar é que elas são ambientais e relacionais, ou seja adquirem-se na convivência familiar. Uma educação muito rígida e punitiva, está, vulgarmente presente nos casos que nos aparecem no consultório. Claro que os lobbies associados ás grandes farmacêuticas, transformaram a neurose obsessiva em TOC e atribuíram-lhe causas biológicas. Nunca vi ninguém com esta doença curar-se apenas com medicamentos, embora sejam necessários em muitas destas situações, mas, com terapia psicanalítica e medicamentosa os sintomas melhoram bastante e a pessoa começa a ter outra qualidade de vida, diferente da anterior.

Que tipo de medicamentos se podem tomar para a neurose obsessiva?

São medicamentos chamados antidepressivos e que possuem também uma acção anti-obsessiva. São os seguintes: Clomipramina (Anafranil), Paroxetina (Aropax, Pondera), Fluvoxamina (Luvox), Fluoxetina (Prozac, Psiquial, Verotina, Deprax, etc.), Sertralina (Zoloft, Tolrest), Citalopram (Cipramil) etc.
As doses, em geral, são mais elevadas do que as utilizadas na depressão. Não se assuste se o médico lhe recomendar doses aparentemente muito altas. No entanto tenha em consideração que primeiro deve fazer uma avaliação com o psicoterapeuta que lhe irá recomendar se é necessário recorrer a medicamentos. Esses medicamentos só podem ser receitados por um médico psiquiatra.

Quanto tempo demora até os medicamentos fazerem efeito?

Pode demorar até 12 semanas para sentir algum alívio, razão pela qual o medicamento não deve ser interrompido se o paciente não sentir alívio após as primeiras semanas de uso. O médico, em geral, procura usar inicialmente uma dose média e, caso não haja nenhuma resposta entre 4 a 8 semanas ou uma resposta parcial em 5 a 9 semanas, poderá elevar as doses para os seus níveis máximos, pois alguns pacientes só melhoram com níveis bastante elevados do medicamento. É importante salientar que 20% dos que não respondem a um medicamento poderão responder a uma segunda. Por este motivo é possível que o médico queira experimentar uma segunda droga depois de algum tempo. Também é comum a associação com outros medicamentos quando a resposta não é satisfatória. No entanto essa terapia deve ocorrer em simultâneo com a psicoterapia.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

O dia da mãe e a importância da sua presença na vida dos filhos.


Desde a Grécia antiga que se festeja o dia de Rhea a Mãe dos Deuses no inicio da Primavera. Séculos mais tarde (sec. XVII) em Inglaterra o quarto domingo da quaresma passou a ser dedicado ás mães das operárias, e nesse dia era possível ficarem em casa e desfrutarem o “Mothering Day” na companhia das suas progenitoras. Nos estados unidos em 1872, com a criação do Hino da Batalha da Republica foram dadas as primeiras indicações para a celebração desse dia. Mas, só em 1912 quando Anne Jarvis, uma jovem norte americana perdeu a mãe e entrou em depressão profunda foi lançada a primeira sugestão para a celebração do dia da mãe. Todos os anos na data que a mãe faleceu era celebrado o seu dia. Rapidamente se alastrou a toda a América e mais tarde à Europa e outros países. Hoje em dia é celebrado com uma componente comercial muito forte, incentivando ao consumo de prendas, para oferecer às mães.
A importância do papel da mãe é indiscutível hoje em dia. Com o contributo da psicanálise percebeu-se que a mãe tinha outro papel que não passava só por alimentar e cuidar. Como dizia Winnicott “a mãe é o primeiro espelho da criança”, sendo a partir desse olhar em que se revê e se constrói enquanto ser humano que se vai estruturar o seu mundo interno, criando laços de segurança que lhe permitem construir alicerces emocionais seguros para uma vida adulta saudável e produtiva nos seus diversos aspectos.
E é a partir do reflexo do espelho da mãe que a criança se vai reconhecendo, vai sentir que é amada, e vai passando a existir e construir a sua identidade.

É a mãe pelo seu discurso que vai ensinando a criança a ler e a compreender o mundo à sua volta, ajudando a criança a dar significado aquilo que a rodeia.

É a mãe que por assim dizer trata a informação que o bebé recebe, que a transforma, reduzindo os seus estados de tensão e de mal-estar e facilita a adaptação e o bem-estar do bebé.

É este trabalho mental da mãe de transformação dos estados da criança, de «continente psíquico», que salvaguarda a qualidade das suas primeiras experiências e que são decisivas para o sentimento do “EU”, e indispensáveis para a sua formação e desenvolvimento.
É a mãe a fundadora dos valores e das auto-representações da criança. É ela enquanto primeiro elemento de vinculação, que vai a criança a “ler o mundo à sua volta” e a tornar-se pessoa. A mãe é pois um importante modelo de identificação para o filho.

Porém, não podemos deixar de referir que o amor maternal é algo infinitamente complexo e imperfeito;

O amor Materno depende não só da história pessoal de cada mulher, da oportunidade da gravidez, do seu desejo da criança, da relação com o pai mas também de factores sociais, culturais e profissionais.

Não é raro verificar que em relação aos filhos, todas as mulheres repetem a história da sua própria relação com a sua mãe.
Ser mãe é pois um grande desafio. Infelizmente não há receitas para ser mãe e não há mães perfeitas!

O Ideal é uma mãe “suficientemente boa” atenta e disponível para estar presente com a criança em todas as fases do seu desenvolvimento e pela vida fora. Ser mãe é um compromisso de amor para a vida toda.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Psicoterapia psicanalitica



Uma psicoterapia é, de uma forma simples, estabelecer uma nova relação com alguém que vai ser o depositário de todas as angústias, medos, fobias, perdas, entre outras emoções que possam estar a ser prejudiciais à vida da pessoa. A decisão de procurar um psicoterapeuta é por si só factor de ansiedade, porque é uma decisão tomada com base num sofrimento que já não se pode elaborar sózinho.

Quando se procura um profissional desta área a pessoa espera que seja alguém que escute e dê sentido ao que ali a trouxe, mas, no entanto por vezes surge o receio que a dor seja ainda mais exposta e a pessoa fique mais fragilizada. Penso que quase todas as pessoas quando chegam a um consultório de psicoterapia têm noção do seu verdadeiro problema e das suas origens. Poderão estar preparadas para o enfrentarem e a psicoterapia irá decorrer de forma normal, ou, se isso ainda não é possível pela fragilidade do ego, então poderá surgir o medo que o psicoterapeuta vá desenterrar demasiado os seus fantasmas e tornar ainda menos suportável a sua existência. Esses medos levam por vezes ao abandono da psicoterapia. A psicoterapia tem um tempo para acontecer, esse tempo é pessoal e tem que ser a pessoa a perceber se é a altura certa. No entanto por vezes a pessoa apenas quer saber o que tem, ou seja, ter uma compreensão do seu sofrimento. A isso chama-se consulta terapêutica.

Por outro lado existe o medo da relação terapêutica. O que é que ele, terapeuta (ou ela) vai fazer comigo? Que irá fazer com as minhas coisas? Será que as conta a alguém? Sou maluco por estar a fazer psicoterapia? Estas questões surgem sempre embora não sejam ditas de forma espontânea muitas vezes, a não ser quando o psicoterapeuta as verbaliza ao paciente. No entanto este processo não tem que ser doloroso embora por vezes numa situação ou noutra a pessoa saia das sessões mais frágil por ter remexido em algo que estava adormecido no inconsciente.

Alguns pacientes que abandonam a terapia, sempre nas sessões iniciais, é pelo facto de não quererem ver remexido algo que sabem que têm mas ainda não estão preparados para ouvir e falar. Outras vezes será por falta de empatia com o terapeuta, porque se trata de uma relação e, ambos têm que sentir que há condições para trabalhar.
Outro entrave à procura de psicoterapia é a dificuldade que muitas pessoas têm em estabelecer uma relação, logo, isso será um obstáculo ao processo uma vez que a tendência da pessoa é fugir das sessões, por temer ficar demasiado ligada.

Portanto, este processo não é isento de medos, angústias e até incertezas. Mas até é saudável que assim seja, uma vez que as relações humanas são pejadas disso e é necessário aprender a viver com tudo isso. O que importa, se a psicoterapia tiver um desenrolar evolutivo, como se espera, é poder esclarecer todas essas dúvidas durante o processo, ganhar confiança e auto-estima, e ter certezas que existe para o terapeuta numa nova relação que se pretende transformadora para ambas as partes.

Paciente e psicoterapeuta fazem um par em que as realidades de ambos se cruzam e se ajustam numa nova relação que deverá permitir ao paciente “crescer” retomando o seu desenvolvimento parado no tempo, lá atrás, talvez na sua infância, ou quiçá numa outra fase da sua vida e assim alcançar um bem-estar que lhe permita viver bem com a sua realidade, ficando livre para amar e trabalhar como postulou Freud.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Bullying: agressor e agredido, duas faces da mesma moeda.


Já foi quase tudo dito sobre o fenómeno e todos sabemos que não é novo. O que o torna mais visivel e polémico é o facto de ser mais divulgado pelos órgãos de comunicação social, o que o torna mais presente na vida de todos. Se o leitor abrir uma das suas gavetinhas, daquelas que já nem se recorda que existam e que guardam episódios da infância, certamente se irá lembrar de episódios em que amigos e colegas de escola, ou quiçá você, foram vítimas de algum tipo de humilhação física ou psicológica, refiro-me ao tempo de escola, obviamente.
Mas, se já trabalha e observar bem à sua volta no seu local de trabalho, também irá encontrar casos que podem ser conotados com bullying, sejam eles mais explícitos ou mais escondidos. Pode ser aquele colega que aparentemente tem fama de ser muito assertivo mas na realidade gosta mais de estar bem com deus e o diabo, e que nas costas de todos diz mal de todos, ou aquele que não perde uma oportunidade de lhe chamar a atenção e lhe diz que é para o seu bem, ou aquele que pela calada faz queixas ao chefe. Enfim, são só alguns exemplos muito simples de algo que também acontece diariamente no ambiente laboral de quase todos.

Mas, o que me leva a escrever este post, não é repetir aquilo que todos já sabem, mas sim, acrescentar o meu ponto de vista que já dei noutras ocasiões, e derivado do conhecimento adquirido na prática clínica. Na semana passada recebi em consulta mais uma criança vítima de bullying, cujo sinal apresentado era vomitar e dores de barriga desde há algum tempo.Nada que fizesse supor que fosse bullying. Feita a avaliação da situação surgiu o facto, uma vez que a baixa auto-estima era evidente. Nas escolas os professores não chegam a saber de metade dos casos existentes, isto porque, como sabem, as vítimas raramente se queixam, sofrem em silêncio.

Sempre que atendo uma situação destas constacto na criança ou adolescente uma baixa auto-estima com sintomas depressivos (entre outros) e, que vem sofrendo desde a primária ou até da pré-primária de ataques por parte dos outros, sem nunca se conseguir defender. São crianças tímidas, que não manifestam agressividade normativa, e como tal ficam expostas aos outros, que, tal como eles, são crianças depressivas, mas como uma organização defensiva um pouco ao contrário. A vítima inflecte a agressividade (vira-a para si) e o agressor deflecte-a (vira para fora, para os outros), mas no entanto, possuem ambos uma estrutura depressiva.
O que se passa no mundo interno de ambos, agressor e vitima, é uma narcisação deficiente, em que um não consegue obter auto-estima suficiente de forma autónoma e fica vulnerável a todos, sempre à espera de confirmar o tipo de relação conhecida na infância, em que era sempre desvalorizada (ou não se sentia desvalorizada) ou a valorização era feita de forma negativa “… então não és capaz? Se os outros são, tu não és burro, também consegues!”. Esta criança organizou-se de forma retraída e teme o contacto com outros, não conseguindo assim defender-se.
O agressor foi também muito desvalorizado “ És mesmo burro, não tens tacto para nada!” no meio familiar e, para além das desvalorizações psicológicas poderá ter sido também vítima de maus tractos físicos, fazendo assim uma identificação ao agressor, passando a agredir os outros, para se sentir valorizado obtendo assim auto-estima pelo reconhecimento da sua superioridade em relação aos outros. O que estes agressores escondem é uma enorme fragilidade egóica que se defende através da agressão. Com estes ninguém se preocupa. São os futuros pais e mães agressores, que vão gerando mais do mesmo num ciclo vicioso quase impossível de quebrar na nossa sociedade.

Estamos perante um problema social que se foi agravando à medida que as relações pais /filhos foram ficando mais distantes, sem valores e com uma agressividade explícita, reflexo das condições económicas e sociais agravadas por políticas completamente desadequadas. Urge fazer uma intervenção de base quando as crianças são mais pequenas, portanto uma intervenção precoce, em que pais e filhos possam aproximar-se de novo, numa relação mais saudável, para obtermos assim no futuro resultados que possam reverter os factos apresentados actualmente. Porque não escolas de pais?

Por último, alerto os pais para sintomas, que, se o seu filho for uma criança mais tímida poderão estar na origem de ataques de bullying: insónias, dores de estômago, barriga, diarreia, vómitos, dor de cabeça entre outros. São sintomas físicos que aparecem quando a mente se torna incapaz de processar o sofrimento psíquico.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Quando é que a ansiedade se torna doença?



A ansiedade é uma emoção normal que existe em todos os seres humanos e de extrema importância para a sobrevivência. É com a ansiedade que nós aprendemos a proteger-nos dos perigos fisicos e psicológicos. Ficamos ansiosos quando antevemos o perigo de sermos assaltados, agredidos física ou verbalmente, dos nossos filhos serem atropelados na rua, entre muitas outras situações em que a ansiedade nos impele a preservar a integridade. Portanto, a ansiedade é uma emoção reguladora da sobrevivência da espécie e como tal através da sua acção o ser humano aprende a defender-se do perigo. Esta é a função normativa da ansiedade, que, se estiver regulada(uma ansiedade normativa) desaparece rapidamente e, actua sobretudo como estimulante, ou seja, o ser humano precisa de manter níveis de ansiedade normais, para que consiga efectuar tarefas de qualquer natureza. Quando o homem deixa de conseguir regular a ansiedade é porque ela se tornou patológica, logo fora do controlo da pessoa. Pode ter niveis de ansiedade elevados ao máximo,como pode não possuir qualquer ansiedade normal, que seja geradora de algum tipo de trabalho ou actividade. Em ambos os casos falamos de patologia.

O que é que causa a ansiedade?
As dificuldades da vida são normalmente o factor desencadeante da ansiedade patológica e nos casos agudos da angústia. Além disso as dificuldades pessoais de inserção na sociedade, os conflitos internos do domínio afectivo, emocional e sexual podem conduzir a uma sintomatologia ansiosa. As investigações indicam que toda a pessoa que sofre de ansiedade grave tem um profundo sentimento de desamparo psíquico oriundo de relações parentais pouco seguras ou de uma insegurança total, portanto, o que subsiste é o sentimento de desamparo e sentimentos depressivos.

Há relação entre ataque de pânico, fobias e ansiedade?
Claro que há. A fobia é um medo irracional de um objecto/animal ou situação. Os ataques de pânico são uma manifestação aguda de angústia sem causa aparente declarada, que podem paralisar um indivíduo através da sensação de asfixia ou medo de morrer. Todo este conjunto de sintomas não são mais que expressões diferentes de ansiedade.

Há alguma relação entre ansiedade e depressão?A ansiedade faz parte do quadro clínico da depressão e está associada às alterações de humor e aos estados depressivos. Podemos assim dizer que todas as pessoas que sofrem de depressão têm graus mais ou menos intensos de ansiedade, assim como quem sofre de ansiedade está deprimida ou em vias de deprimir.

Quais são os sintomas da ansiedade grave?A ansiedade é acompanhada de vários sintomas físicos: aceleração respiratória, alteração do batimento cardíaco, xixis frequentes, diarreia frequente, desfalecimento das pernas, palidez, contracção ou relaxamento do musculo facial, sudação das palmas das mãos ( resposta galvânica da pele), sudação de todo o corpo, sensação de vertigem.

Como é que a ansiedade evolui de normal para patológica?
Quando a pessoa já não consegue controlar as emoções e sente-se num estado de ansiedade generalizado, ou seja, em todas as situações da sua vida quotidiana. As emoções descontrolam-se, o cérebro deixa de produzir neurotransmissores e a ansiedade instala-se impedindo a pessoa de funcionar. Aparecem as mais diversas fobias, ou ataques de pânico, geradores de um desconforto enorme.

O que é e como se manifesta a ansiedade generalizada?
A Ansiedade Generalizada manifesta-se por um estado de tensão, duma inquietude permanente, sem que algum acontecimento exterior o possa explicar. São pessoas que estão permanentemente em sobressalto e sofrem com isso. O sintoma-chave é uma ansiedade ou um medo não realista, e excessivo, face a acontecimentos futuros.~

As queixas somáticas são: dores de estômago, dores de cabeça (cefaleias), diarreia, suores e transpiração excessiva, vertigens.... Esta psicopatologia torna-se um handicap porque torna a vida complicada e difícil de ser vivida, nomeadamente no quotidiano, no trabalho e nas relações pessoais.
Estima-se que a sua prevalência seja de 3 a 7%, com uma incidência mais elevada nos filhos mais velhos e nos filhos únicos. São pessoas muito conscienciosas e que têm necessidade de serem tranquilizadas permanentemente.
A ansiedade generalizada evolui para doença: transforma-se em fobias e obsessões /compulsões.

Tratamento da ansiedadeSofrer de perturbação da ansiedade não é nenhuma banalidade nem uma fatalidade. Os tratamentos para cada tipo de ansiedade variam e são estabelecidos em função da natureza do problema (fobias, obsessões, pânico, etc.) e estabelecidos em função da personalidade do sujeito que as sofre.
Podemos encontrar ansiedades que se exprimem por outros tipos de sintomas como por exemplo, no caso de homens com ejaculação precoce, ou com impotência sexual, ou casais que há muito tempo tentam ter um filho, etc., depois de se terem realizados os despistes e exames médicos necessários, e ter-se verificado a ausência de efeitos fisiológicos, verifica-se que a ansiedade e a perturbação emocional são um factor enorme e responsável, na manutenção dessas dificuldades. Ou ainda, pessoas que encontram no álcool, ou nas drogas, um escape para verem as suas angústias e preocupações aliviadas, e acabam por entrar num esquema traiçoeiro onde num primeiro momento as utilizam como qualquer coisa que ajuda a ficar mais calmo e que até dá prazer, mas mais tarde num esquema de dependência.
Os exemplos podem ser vários, mas o importante a saber é que, uma grande parte das ansiedades patológicas são curáveis, outras serão susceptíveis de melhoramentos consideráveis que permitem, na generalidade, devolver às pessoas uma vida normal.
O tratamento é combinado em algumas situações, ou seja, com terapia medicamentosa ansioliticos e antidepressivos e psicoterapia em simultâneo. Saliento que só a medicação não resolve o problema é sempre necessário fazer a psicoterapia. O objectivo da medicação é ajudar a psicoterapia.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Antidepressivos: Curam ou não?


O consumo de antidepressivos em Portugal teve um aumento de 110%, nos últimos dez anos, segundo relatório do INFARMED. Actualmente é a forma preponderante no tratamento da depressão muito por desconhecimento dos seus efeitos e de alternativas a este tratamento, sendo que a maioria dos diagnósticos são feitos por médicos que não tem formação ao nível da psicologia e da psiquiatria e defendem que apenas os medicamentos tratam a depressão. Existem vários tipos de antidepressivos sendo os mais receitados os (ISRS) Inibidores Selectivos de Recaptação da Serotonina, onde se inclui o famoso Prozac, o Paxetil, o Zoloft e o Cipralex. A sua designação de “antidepressivos” é enganadora uma vez que não curam a depressão. São estimulantes da familia das anfetaminas cuja função é acelerar o organismo através da acção das neurohormonas, neuropeptideos e neurotransmissores como a noropinefrina e serotonina. O estimulo que o antidepressivo provoca no organismo faz com que a pessoa se sinta melhor, no entanto a sua acção é muito mais vasta, provocando importantes alterações psíquicas e físicas, com uma importância enorme para a saúde. Alguns autores defendem que os antidepressivos não “existem”, uma vez que, se o fossem na realidade, tratariam com eficácia a depressão o que não acontece, uma vez que em alguns estudos feitos recentemente o placebo tem o mesmo efeito que a medicamante, logo a sua eficácia é muito duvidosa senão mentirosa mesmo.
O PROZAC é utilizado em curas de emagrecimento milagrosas, com compostos feitos nas farmácias e que ninguém sabe a sua composição. Grande parte desses compostos, receitados pelos médicos que trabalham na área, têm por base a Fluoxetina, genérico do Prozac, mas, quem faz essas ditas curas desconhece o que está a tomar. Se pensarmos que grande parte das pessoas que tomam antidepressivos por um período de tempo razoável (mais de dois anos) começam a perder funções cognitivas com alguma rapidez, então imagine-se o que fazem a quem os toma muitos anos, no caso de pessoas gravemente deprimidas e que não vão além das consultas de psiquiatria. É raros os psiquiatras recomendarem às pessoas com depressão que façam psicoterapia, a não ser, que sejam psicoterapeutas ou psicanalistas. Existem estudos que comprovam que a eficácia da psicoterapia é superior ao medicamento e, como os efeitos da psicoterapia nomeadamente da psicanalítica são duradoiros, ou seja, o que foi adquirido em termos de auto-estima e autonomia permanece.
Por ultimo os efeitos prolongados dos antidepressivos são: retenção urinária, cáries dentarias, convulsões, distúrbios sexuais, alterações hematológicas e hepáticas, musculares, ósseas, neurológicas ( as primeiras a aparecerem), gastrointestinais, estados confusos, psicose, entre muitos outros. Assim, e perante estes factos, a toma de antidepressivo, deveria ser a ultima solução depois de procurar uma psicoterapia que se adeqúe à pessoa. Se a psicoterapia não funcionar ao fim de um par de meses, então sim dever-se-ia tentar um tratamento combinado, psicoterapia e psiquiatria com a finalidade de ajudar no processo da psicoterapia. Muitos das pessoas que tomam antidepressivos durante anos sem resultados, se fossem encaminhadas para uma psicoterapia, evitariam muitos problemas no círculo em que se movimentam, tais como, família e emprego, uma vez que o desgaste de quem está à volta de pessoas com depressão é muito intenso. No entanto quero aqui deixar expresso que existem outras situações em que a ajuda dos antidepressivos é necessária, nomeadamente na Esclerose Multipla, Fibromialgia e demências tipo Alzheimer, entre outras que não estão aqui mencionadas, por isso, é muito importante fazer um diagnóstico correcto. Se é depressão por falta de auto-estima, afecto, ou perda significativa, ou se é uma doença com sintomas de depressão, porque no primeiro caso, não é necessário usar antidepressivos.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Estados Depressivos



E.Munch "Melancolia"

Os quadros clínicos depressivos, nas suas múltiplas formas e graus, são o maior motivo de procura de psicoterapia, assumindo uma predominância na motivação para a busca de tratamento. Os estados depressivos estão entre as primeiras causas incapacitantes para a vida activa, sendo que cinco dessas causas são psiquiátricas, a Depressão é a primeira delas. Em geral os médicos que não são psiquiatras, não diagnosticam correctamente a depressão, e os que o fazem adoptam um tratamento desadequado com benzodiazepinas, ou mais acertado com antidepressivos, mas em dosagens desadequadas. Os diversos estados depressivos estão aumentando, mas felizmente as pessoas cada vez procuram mais a ajuda psicoterapêutica e por vezes combinada (psiquiatria e psicoterapia), embora quando a primeira escolha é a psiquiatria, demore tempo a chegar à psicoterapia (a não ser que o psiquiatra seja também psicoterapeuta) pelo facto da maioria dos médicos dessa especialidade não valorizarem a psicoterapia, uma atitude errada, uma vez que induzem o consumo excessivo de medicamentos que só por si não resolvem a depressão, podendo criar verdadeiras dependências nas pessoas.
O aumento tão significativo do número de pessoas deprimidas, que procuram a psicoterapia e a psicanálise deve-se às mudanças sociais e à constante busca de um lugar ao sol, o que aumenta a sensação de fracasso pessoal, o que afecta bastante a auto-estima pessoal favorecendo a eclosão de quadros depressivos.
O número de “depressões subclinicas”, estados depressivos que não se manifestam de forma evidente, mas, sim, por meio de traços mais inaparentes, como por exemplo um estado de continuada apatia, hipocondria, transtornos alimentares, adicções várias, alcoolismo etc., são em número muito elevado, não chegando a maioria delas a qualquer tipo de tratamento por diagnósticos mal feitos e casos que não são encaminhados para despiste noutras especialidades de saúde mental.
Os tipos de depressões são vários bem como as causas que as desencadeiam. As causas podem ser psíquicas, ambientais, biológicas (demências e tumores cerebrais) e sobretudo relacionais tendo a sua génese na infância (depressão analítica ou de vazio, identificativas ao objecto, por perdas prematuras e traumáticas, por culpa, por ruptura com os papeis designados pelos pais, fracasso narcísico, pseudodepressões, por reactividade a acontecimentos de vida, por lutos patogénicos, por deficiente reconhecimento e sobretudo por falta de amor) e os sintomas são quase sempre idênticos em todos os tipos sendo que a culpa internalizada e a baixa auto-estima são o que distingue a depressão normal da depressão borderline ( sem culpa e sem baixa auto-estima) e de outros estados, tais como a tristeza normal que acompanha o ser humano em perdas significativas, tais como o luto normal em que a pessoa está triste mas não está deprimida. Qualquer das situações aqui mencionadas é passível de procura de ajuda psicoterapêutica sendo por vezes necessário fazer um tratamento combinado de psicoterapia e psiquiatria, dependendo da gravidade da depressão.

Fonte (Zimerman, D. 2004)

domingo, 22 de novembro de 2009

Fobias e ansiedade

"O grito" Van Gogh

A palavra fobia deriva de Phobos, deusa grega do medo. Uma fobia é um medo persistente e irracional que resulta no evitamento de forma consciente de objectos, actividades, situações ou animais que são temidos. A fobia consiste num aumento da ansiedade, até limites que impedem a pessoa de funcionar normalmente e que causa um mal-estar enorme. Existem diversos tipos de fobia: medo dos espaços fechados e abertos, medo de aranhas, cobras, cães, alturas, sangue, medo de morrer, medo da vida social, entre outras. No entanto as fobias são medos deslocados sobre algo que existe ao nível inconsciente, logo são deslocados sobre um objecto do consciente, mais suportável e que permite à pessoa ir funcionando, ou seja, são conflitos psicológicos internos relacionados com angustias de desamparo, que aparecem sobre a forma de ansiedade face a algo ( objecto fobigeno)e, que se traduzem em medo e evitamento. Pode existir ainda uma atitude contrafóbica, a pessoa em vez de evitar o medo, enfrenta-o. São exemplos disso, os desportos perigosos, em que a pessoa pode estar a exibir um comportamento contrafóbico. Por vezes até um simples pensamento sobre o objecto fóbico, pode causar ansiedade, não é preciso estar na presença da causa da fobia.

Características clínicas das fobias: as fobias caracterizam-se pelo aparecimento de crises de ansiedade extremas, quando a pessoa é exposta ao objecto ou situação, e pode apresentar rubor intenso da face, e situação generalizada de pânico,vertigens , suores intensos, suor na palma das mãos ( resposta galvânica da pele) e isolamento social.

Dependências de álcool e drogas e depressão grave podem ser aspectos associados ao agravamento das fobias quando elas existem, uma vez que só sob o efeito de substancias o sujeito suporta a ansiedade.

Quando é que se pode dizer que estamos perante uma fobia: quando o medo persiste perante um objecto, animal ou situação, ou pensamento que desperte a ansiedade. Nessas situações a ansiedade aumenta, quando a pessoa evita de forma intensa essas situações, fica num estado de ansiedade extrema, que a impede de fazer a sua vida normal no trabalho, em casa, socialmente, conduzindo a estados depressivos que se agravam ao longo do tempo.

Como se tratam as fobias: existem diversas formas de tratar as fobias, desde medicamentos a terapias de dessensibilização sistemática, entre outros, no entanto este tipo de tratamentos apenas resolve temporariamente. Os sintomas voltam mais tarde ,até de outra forma, incidindo sobre outra situação. A psicoterapia dinâmica/psicanalítica é a forma mais eficaz de tratar as fobias, na minha opinião, pelos resultados da prática clínica e pelos estudos sobre o tema, baseados nessa prática de investigação . A pessoa vai explorando com o psicoterapeuta a origem dos medos. O pano de fundo de uma fobia é sempre uma angústia de desamparo enorme, que aparece num medo deslocado (objecto fóbico), e uma depressão latente que mais cedo ou mais tarde acaba por aparecer quando o sofrimento se torna insuportável.

Ao entender e elaborar os verdadeiros motivos das fobias e, com base na relação nova de segurança que vai estabelecendo com o psicoterapeuta ou analista, durante o processo a fobia melhora bastante de inicio, desaparecendo ao fim de algum tempo. O medo desaparece. A pessoa fica mais capaz de conduzir a sua vida.